Estamos resignados a viver apenas uma vez, a não ser por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar. Nós especulamos que seria pelo menos possível que, assim que as pessoas aceitassem o fato de que suas vidas são curtas e duras, se comportassem melhor com os outros, e não pior. Acreditamos com grande dose de certeza que é possível levar uma vida ética sem religião. Não temos a necessidade de nos reunir todos os dias, ou a cada sete dias, ou em qualquer dia elevado e auspicioso, para proclamar nossa retidão ou rastejar e chafurdar em nossa miséria. Nós, ateus, não precisamos de sacerdotes, ou de alguma hierarquia deles, para policiar nossa doutrina. Sacrifícios e cerimônias são abomináveis para nós, assim como relíquias e a adoração de qualquer imagem ou objeto (inclusive na forma de uma das mais úteis inovações do homem: o livro encadernado). Para nós, nenhum ponto da Terra é ou pode ser "mais sagrado" que outro, ao absurdo ostentatório da peregrinação ou ao absoluto horror de matar civis em nome de algum muro, gruta, templo ou pedra sagrados, contrapomos uma caminhada relaxada ou apressada de um lado da biblioteca ou da galeria ao outro, ou um almoço com um amigo agradável, em busca de verdade ou beleza. Algumas dessas excursões à prateleira, ao restaurante ou à galeria obviamente irão, se forem sérias, nos colocar em contato com crença e crentes, dos grandes pintores e compositores devocionais às obras de Agostinho, Aquino, Maimônides e Newman. Esses grandes estudiosos podem ter escrito muitas coisas maldosas ou muitas coisas tolas, e ter pateticamente ignorado a teoria dos germes para a doença ou a posição do globo terrestre no sistema solar, quanto mais no universo, e essa é a simples razão pela qual não há mais deles hoje, e por que não haverá mais deles amanhã. A religião disse suas últimas palavras inteligíveis, nobres ou inspiradoras há muito tempo: ou isso ou se transformou em um humanismo admirável mas nebuloso como no caso, digamos, de Dietrich Bonhoeffer, um bravo pastor luterano enforcado pelos nazistas por se recusar a colaborar com eles. Não teremos mais os profetas ou os sábios do passado, e é por isso que as devoções hoje não passam de ecos de ontem, algumas vezes transformados em gritos para disfarçar o terrível vazio. Deus não criou o homem à sua imagem. Evidentemente foi o contrário, e essa é a explicação para a profusão de deuses e religiões e o fratricídio entre religiões e no interior delas que vemos ao nosso redor e que tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização. Isso já é mistério e maravilha suficientes para qualquer mamífero: a pessoa mais educada do mundo agora tem de admitir — eu não quero dizer confessar — que sabe cada vez menos, mas pelo menos sabe cada vez menos sobre cada vez mais. Como consolo, já que as pessoas religiosas frequentemente insistem em que a fé atende a essa suposta necessidade, eu digo simplesmente que aqueles que oferecem falso consolo são falsos amigos. De qualquer modo, os críticos da religião não simplesmente negam que ela tenha um efeito analgésico. Em vez disso, eles fazem um alerta contra o placebo e a garrafa de água colorida. Provavelmente a mais popular citação equivocada dos tempos modernos — certamente a mais popular nesta discussão — é a afirmação de que Marx descartou a religião como sendo "o ópio do povo". Ao contrário, esse filho de uma linhagem rabínica levava muito a sério a crença, e escreveu assim em sua contribuição à Critica da filosofia do direito de Hegel: A inquietação religiosa é ao mesmo tempo expressão de inquietação real e o protesto contra a inquietação real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo. A abolição da religião como felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. A necessidade de abrir mão das ilusões sobre sua condição é a necessidade de abrir mão de uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião, portanto, está no cerne da crítica ao adeus aos sofrimentos, cujo halo é a religião. A crítica retirou as flores imaginárias da corrente não para que o homem use a corrente sem fantasia ou consolo, mas para que ele se livre da corrente e colha a flor viva. O mesmo é verdade, como frequentemente é esquecido, no caso de seus equivalentes católicos. As formações Ustashe foram revividas na Croácia e fizeram uma tentativa criminosa de tomar a Herzegovina, como tinham feito durante a Segunda Guerra Mundial. A bela cidade de Mostar também foi bombardeada e sitiada, e a mundialmente famosa Stari Most, ou "Ponte Velha", datada da época turca e considerada pela Unesco local cultural de importância mundial, foi bombardeada até desmoronar rio abaixo. De fato, as forças extremistas católicas e ortodoxas estavam unidas em uma divisão e em uma limpeza sangrentas da Bósnia-Herzegovina. Elas foram, e em grande medida ainda são, poupadas dessa vergonha pública porque a mídia mundial preferiu a simplificação de "croata" e "sérvio" e só mencionou religião quando se referia a "os muçulmanos". Mas a tríade de termos "croata", "sérvio" e "muçulmano" é desigual e enganadora, no sentido de que equaciona duas nacionalidades e uma religião. (A mesma confusão é feita de forma diferente na cobertura do Iraque, com o trio "sunita-xiita-curdo"). Havia pelo menos dez mil sérvios em Sarajevo durante o cerco, e um dos principais comandantes da defesa, um oficial e cavalheiro chamado general Jovan Divjak, cuja mão tive orgulho de apertar sob fogo, também era sérvio. A população judaica da cidade, que datava de 1492, em sua maioria também se identificava com o governo e a causa da Bósnia. Teria sido muito mais correto se a imprensa e a televisão tivessem dito que "hoje as forças cristãs ortodoxas retomaram o bombardeio de Sarajevo" ou "ontem a milícia católica conseguiu derrubar a Stari Most". Mas a terminologia confessional era reservada exclusivamente aos "muçulmanos", mesmo que seus assassinos se dessem o trabalho de usar grandes cruzes ortodoxas sobre as bandoleiras ou colar imagens da Virgem Maria nas coronhas dos rifles. Assim, mais uma vez, a religião envenena tudo, incluindo nossa própria capacidade de discernimento. A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo "Espírito Santo." Sim, e o semideus grego Perseu nasceu quando o deus Júpiter visitou a virgem Danae na forma de um banho de ouro e a engravidou. O deus Buda nasceu através de uma abertura no lado do corpo de sua mãe. Coatlicue, a serpente, pegou uma pequena bola de plumas do céu e a escondeu em seu seio, e assim o deus asteca Huitzilochtli foi concebido. A virgem Nana pegou uma romã da árvore banhada pelo sangue do assassinado Agdistis, colocou-a em seu seio e deu à luz o deus Attis. A filha virgem de um rei mongol acordou certa noite e se viu banhada por uma luz grandiosa, que fez com que ela desse à luz Gêngis Khan. Krishna nasceu da virgem Devaka. Horus nasceu da virgem Ísis. Mercúrio nasceu da virgem Maia. Rômulo nasceu da virgem Rhea Silvia. Por alguma razão, muitas religiões se obrigam a pensar no canal de nascimento como uma rua de mão única, e até mesmo o Corão trata a Virgem Maria com reverência. Contudo, isso não fez diferença durante as Cruzadas, quando um exército papal partiu para retomar Belém e Jerusalém dos muçulmanos, incidentalmente destruindo muitas comunidades judaicas e saqueando a cristã herética Bizâncio no caminho, e promoveu um massacre nas ruas estreitas de Jerusalém, onde, de acordo com cronistas histéricos e encantados, o sangue jorrava até a brida dos cavalos. Bem, como eu consegui responder em uma réplica posterior a Dennis Prager, agora você tem sua resposta. Os 19 assassinos suicidas de Nova York, Washington e Pensilvânia eram, sem dúvida alguma, os crentes mais sinceros naqueles aviões. Talvez possamos ouvir um pouco menos sobre como as "pessoas de fé" têm vantagens morais que as outras só podem invejar. E o que aprender com o júbilo e a propaganda extasiada com que esse grande feito de fé foi louvado no mundo islâmico? Na época os Estados Unidos tinham um procurador-geral chamado John Ashcroft que afirmara que os Estados Unidos "não tinham rei que não Jesus" (uma afirmação que era exatamente três palavras longa demais). Havia um presidente que queria entregar o tratamento aos pobres a instituições "baseadas na fé". Esse não seria o momento de dar algum valor à luz da razão e à defesa de uma sociedade que separa Igreja e Estado e valoriza a liberdade de expressão? É preciso destacar de imediato que esse tipo de coisa, além de antiético e não profissional, era também absolutamente inconstitucional e antiamericano. James Madison, o autor da Primeira Emenda à Constituição, que proíbe qualquer lei referente ao estabelecimento de uma religião, também foi um dos autores do Artigo IV, que afirma de forma inequívoca que "nenhum teste religioso poderá ser exigido como qualificação para qualquer posto ou cargo público". Seu Detached Memoranda posterior deixa absolutamente claro que ele, para começar, se opunha à nomeação de capelães, tanto nas Forças Armada quanto nas cerimônias de instalação do Congresso. "O estabelecimento do posto de capelão no Congresso é uma clara violação dos direitos iguais, bem como dos princípios da Constituição." Quanto à presença de clérigos nas Forças Armadas, Madison escreveu: "O objetivo disso é sedutor, o motivo é louvável. Mas não é mais seguro aderir a um princípio correto e confiar em suas consequências do que confiar no raciocínio, por mais ilusório que seja, em favor de um errado? Observe os exércitos e marinhas do mundo e diga se o que está sendo mais contemplado na nomeação de seus ministros de religião é o interesse espiritual dos rebanhos ou o interesse pessoal do pastor." Qualquer um que citasse Madison hoje muito provavelmente seria considerado subversivo ou insano, mas sem ele e Thomas Jefferson, coautores do Estatuto da Virgínia sobre Liberdade Religiosa, os Estados Unidos teriam continuado a ser o que eram — com os judeus proibidos de ocupar cargos em alguns estados, católicos em outros e protestantes em Maryland: este último era um estado em que "palavras profanas referentes à Santíssima Trindade" eram passíveis de punição com tortura, marcação a ferro e na terceira oportunidade, "morte sem o benefício de um clérigo". A Geórgia poderia ter continuado a insistir que sua fé estadual oficial era o "protestantismo" — quaisquer que pudessem ser os muitos híbridos de Lutero. Em 2005 eu tomei conhecimento de um resultado. No norte da Nigéria — país que anteriormente tinha sido considerado provisoriamente livre da poliomelite — um grupo de religiosos islâmicos lançou uma proclamação, ou fatwa, declarando a vacinação contra a poliomelite uma conspiração dos Estados Unidos (e, surpreendentemente, das Nações Unidas) contra a fé muçulmana. Aqueles mulás diziam que as gotas eram projetadas para esterilizar os verdadeiros crentes. O objetivo e o efeito eram genocidas. Ninguém deveria tomá-las ou administrá-las aos bebês. Em alguns meses a poliomelite tinha retornado, e não apenas no norte da Nigéria. Viajantes e peregrinos nigerianos já a tinham levado até Meca e a espalhado novamente para vários outros países livres da poliomelite, incluindo três africanos e também o distante Iêmen. A pedra teria de ser novamente rolada até o topo da montanha. Você pode dizer que esse é um caso "isolado", o que seria uma forma terrivelmente hábil de colocar as coisas. Mas você estaria errado. Você gostaria de ver meu vídeo do conselho dado pelo cardeal Alfonso Lopes de Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, cuidadosamente alertando sua plateia de que todos os preservativos são secretamente feitos com muitos furos microscópicos pelos quais o vírus da aids pode passar? Feche os olhos e tente imaginar o que você diria caso tivesse a autoridade de infligir o maior sofrimento possível com o menor número de palavras. Pense no dano que tal dogma causou: presumivelmente esses furos permitem também a passagem de outras coisas, o que para começar elimina o sentido de um preservativo. Fazer tal afirmação em Roma já é perverso o bastante. Mas traduza a mensagem para o idioma dos países pobres e assolados e veja o que acontece. Durante o carnaval no Brasil, o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Rafael Llano Cifuentes, disse em um sermão à sua congregação que "a Igreja é contra o uso de preservativos. As relações sexuais entre um homem e uma mulher devem ser naturais. Eu nunca vi um cachorrinho usando um preservativo durante o intercurso sexual com outro cão". Clérigos em altos postos em diversos outros países — o cardeal Obando y Bravo da Nicarágua, o arcebispo de Nairóbi, no Quênia, o cardeal Emmanuel Wamala, de Uganda — também disseram a seus rebanhos que os preservativos transmitem a aids. De fato, o cardeal Wamala opinou que as mulheres que morrem de aids deveriam, em vez de empregar proteção de látex, ser consideras mártires (embora presumivelmente esse martírio deva acontecer nos limites do casamento). As autoridades islâmicas não se saíram melhor, e algumas vezes foram ainda piores. Em 1995, o Concílio de Ulemás, na Indonésia, insistiu em que os preservativos só estivessem disponíveis para casais casados, e com receita médica. No Irã, um trabalhador HIV-positivo pode perder o emprego, e médicos e hospitais tem o direito de recusar tratamento para pacientes com aids. Um funcionário do Programa de Controle da Aids do Paquistão disse à revista Foreign Policy em 2005 que o problema era menor em seu país por causa dos "melhores valores sociais e islâmicos". Isso em um Estado em que a lei permite que uma mulher seja sentenciada a ser estuprada por um bando, de modo a expiar a "vergonha" de um crime cometido por seu irmão. É a velha combinação religiosa de repressão e negação: uma praga com a aids não deve ser mencionada porque os ensinamentos do Corão são em si suficientes para inibir o intercurso antes do casamento, o uso de drogas, o adultério e a prostituição. Mesmo uma rápida visita, digamos, ao Irã irá demonstrar o contrário. São os próprios mulás que lucram com a hipocrisia, ao licenciarem "casamentos temporários", nos quais certidões de casamento estão disponíveis por algumas horas, algumas vezes em casas especialmente estabelecidas, com uma declaração de divórcio à mão na conclusão do negócio. Você quase poderia chamar de prostituição... Na última vez em que me fizeram tal oferta eu estava exatamente em frente ao feio templo do aiatolá Khomeini no sul de Teerã. Mas se espera que mulheres cobertas de véus, infectadas com o vírus por seus maridos, morram em silêncio. É certo que em todo o mundo outras pessoas inocentes e decentes irão morrer, de forma terrível e desnecessariamente, como resultado desse obscurantismo. Uma questão hipotética. Como homem de cerca de 57 anos de idade, eu sou flagrado chupando o pênis de um bebê. Peço que você imagine seu próprio ultraje e sua náusea. Ah, mas eu tenho minha explicação pronta. Eu sou um mohel: um circuncidador oficial e removedor de prepúcio. Minha autoridade provém de um antigo texto, que determina que eu pegue o pênis do bebê em minha mão, corte ao redor do prepúcio e complete o ato colocando seu pênis em minha boca, sugando o prepúcio e cuspindo o pedaço amputado juntamente com um punhado de sangue e saliva. Essa prática foi abandonada pela maioria dos judeus, por causa de sua natureza anti-higiênica ou suas associações perturbadoras, mas ainda resiste entre os fundamentalistas hassídicos, que esperam que o Segundo Templo seja reconstruído em Jerusalém. Para eles, o rito primitivo do peri'ah metsitsah é parte do acordo original e irrevogável com Deus. Descobriu-se que em Nova York, no ano de 2005, o ritual, realizado por um mohel de 57 anos de idade, transmitiu herpes genital a vários meninos e causou a morte de pelo menos dois deles. Em circunstâncias normais a revelação teria levado o Departamento de Saúde Pública a proibir a prática e o prefeito a denunciá-la. Mas, na capital do mundo moderno na primeira década do século XXI, não foi o caso. Em vez disso, o prefeito Bloomberg ignorou os relatórios de respeitados médicos judeus que alertavam para o perigo do costume e determinou à sua burocracia sanitária que adiasse qualquer veredicto. A questão fundamental, disse ele, era assegurar que a livre prática da religião não estivesse sendo infringida. Ouvi a mesma coisa em um debate público com Peter Steinfels, o católico liberal "editor de religião" do New York Times. Por acaso era ano de eleição para prefeito em Nova York, o que frequentemente explica muito. Mas esse padrão se repete em outras doutrinas, outros estados e cidades, bem como em outros países. Em uma grande região da África animista e muçulmana, meninas são submetidas ao inferno da circuncisão e da infibulação que consiste na retirada do clitóris e dos lábios, frequentemente com uma pedra amolada, e depois na costura da abertura vaginal com uma corda forte que só pode ser removida ao ser rompida pela força do macho na noite de núpcias. Enquanto isso, a compaixão e a biologia permitem que seja deixada uma pequena abertura para a passagem do sangue menstrual. O mau cheiro, a dor, a humilhação e o sofrimento consequentes excedem qualquer coisa facilmente imaginável e inevitavelmente resultam em infecção, esterilidade, vergonha e a morte de muitas mulheres e crianças no parto. Nenhuma sociedade iria tolerar tal agressão a suas mulheres e portanto, a sobrevivência, se essa prática abjeta não fosse sagrada e santificada. Mas, então, nenhum nova-iorquino permitiria atrocidades contra recém-nascidos se não pelos mesmos motivos. Pais que disseram acreditar nas alegações absurdas da "ciência cristã" foram acusados, mas nem sempre condenados, por negar cuidados médicos urgentes a seus filhos. Pais que se imaginam "testemunhas de Jeová" recusaram permissão para que seus filhos recebessem transfusões de sangue. Pais que imaginam que um homem chamado Joseph Smith foi guiado a um conjunto de placas de ouro enterradas casaram suas filhas "mórmons" menores de idade com tios e cunhados que algumas vezes já tinham esposas mais velhas. Os fundamentalistas xiitas do Irã reduziram a idade de "consenso" para 9 anos, talvez em uma emulação admirada da idade da "esposa" mais jovem do "profeta" Maomé. Meninas noivas hindus na Índia são açoitadas, e algumas vezes queimadas vivas, se o dote patético que elas trazem é considerado pequeno demais. Apenas na década passada o Vaticano e sua vasta rede de dioceses foram obrigados a admitir cumplicidade em um enorme número de casos de estupro e tortura de crianças, principalmente, mas de modo algum exclusivamente, homossexuais, em que pederastas e sádicos conhecidos eram protegidos da lei e transferidos para paróquias onde a colheita de inocentes e indefesos frequentemente era melhor. Apenas na Irlanda — antes fiel discípula da Santa Madre Igreja — estima-se hoje que as crianças não molestadas nas escolas religiosas são muito provavelmente a minoria. Sabe-se hoje que a relação entre saúde física e saúde mental tem uma forte ligação com função, ou disfunção, sexual. Será então uma coincidência que todas as religiões aleguem ter o direito de legislar em matéria de sexo? A principal forma pela qual os crentes afetam a si mesmos, uns aos outros ou aos não-crentes sempre foi sua alegação de monopólio nessa área. A maioria das religiões (com exceção dos poucos cultos que o permitem ou encorajam) não tem de se preocupar muito em reforçar o tabu sobre o incesto. Como o assassinato e o roubo, isso normalmente se revela repugnante para os humanos sem maiores explicações. Mas simplesmente pesquisar a história do medo sexual e da proscrição como codificada pela religião é encontrar uma ligação muito perturbadora entre extrema lascívia e extrema repressão. Quase todos os impulsos sexuais tiveram um momento de proibição, culpa e vergonha. Sexo manual, sexo oral, sexo anal, sexo em diversas posições: basta pensar para encontrar uma proibição medrosa a ele. Mesmo nos Estados Unidos modernos e hedonistas, vários estados definem legalmente a "sodomia" como algo que não é voltado para uma procriação heterossexual face a face. A razão é a meretriz do Diabo, que nada faz a não ser difamar e corromper tudo o que Deus diz e faz. Martinho Lutero Antes de Charles Darwin revolucionar todo o conceito de nossas origens e Albert Einstein fazer o mesmo pelo nascimento de nosso universo, muitos cientistas, filósofos e matemáticos assumiram o que poderia ser chamado de posição omissa e professaram uma ou outra versão de "teísmo", sustentando que a ordem e a previsibilidade do universo de fato pareciam indicar um projetista, embora não necessariamente um projetista que tivesse qualquer papel ativo nas questões humanas. Essa solução era lógica e racional para a época, e teve especial influência entre os intelectuais da Filadélfia e da Virgínia, como Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, que conseguiram se valer de um momento de crise e inseriram os valores do Iluminismo nos documentos fundadores dos Estados Unidos da América.
Um filósofo e teólogo medieval que continua a falar de forma eloquente através das eras é William Ockham. Algumas vezes conhecido como William de Ockham (ou Occam), e supostamente conhecido pelo nome de sua aldeia natal em Surrey, Inglaterra, que ainda é chamada assim, ele nasceu em data ignorada e morreu — provavelmente em grande agonia e medo, e provavelmente da horrível Peste Negra — em Munique em 1349. Ele era franciscano (em outras palavras, um acólito do já mencionado mamífero que teria pregado aos pássaros), portanto condicionado a uma abordagem radical da pobreza, o que o levou a um choque com o papado em Avignon em 1324. A divergência entre o papado e o imperador acerca da divisão de poderes seculares e eclesiásticos é irrelevante para nós agora (já que no final os dois lados "perderam"), mas Ockham foi obrigado a buscar a proteção do imperador em face do mundanismo do papa. Confrontado com acusações de heresia e a ameaça de excomunhão, ele teve a coragem de responder que o próprio papa era herege. Ainda assim, e como ele sempre debateu dentro do limitado quadro de referências cristão, mesmo as autoridades cristãs mais ortodoxas admitem que foi um pensador original e corajoso.
Em verdade, foi Ockham que preparou nossas mentes para essa conclusão indesejável (para ele). Ele concebeu um "princípio de economia", popularmente conhecido como "navalha de Ockham", que se baseia em descartar suposições desnecessárias e aceitar a primeira explicação ou causa suficiente. "Não multiplique entidades além do necessário." O princípio se estende. "Tudo que se explica afirmando algo diferente do ato de compreender pode ser explicado sem afirmar essa coisa diferente", escreveu ele. Ele não temia seguir sua própria lógica até onde ela o levasse, e antecipou o surgimento da verdadeira ciência ao concordar em que era possível conhecer a natureza das coisas "criadas" sem qualquer referência a seu "criador". De fato, Ockham afirmou que não pode ser decididamente provado que Deus, se definido como um ser que possui as qualidades de supremacia, perfeição, singularidade e infinidade, existe. Contudo, se alguém quer identificar uma primeira causa da existência do mundo, pode escolher chamar isso de "deus", mesmo que não conheça a precisa natureza da primeira causa. E mesmo que a primeira causa tenha suas dificuldades, já que uma causa pode em si precisar de outra. Ele escreveu: "É difícil uma infinita regressão ou impossível contestar os filósofos em que não pode haver nas causas do mesmo tipo, que uma pode existir sem a outra." Assim, o postulado de projetista ou criador apenas levanta a questão irrespondível de quem projetou o projetista ou criou o criador. Religião, teologia e teodiceia (agora sou eu falando, não Ockham) têm constantemente fracassado em superar essa objeção. O próprio Ockham simplesmente teve de recuar para a posição desesperançada de que a existência de Deus só pode ser "demonstrada" pela fé.
Mesmo o que primeiro se soube sobre a simetria comparativamente consoladora do sistema solar, ainda que com sua clara tendência à instabilidade e à entropia, incomodou sir Isaac Newton o bastante para que propusesse a intervenção imediata de Deus para devolver estabilidade às órbitas. Isso o expôs a provocações de Leibniz, que perguntou por que Deus não podia ter feito a coisa certa desde o começo. De fato, é apenas pela assustadora vacuidade do resto que estamos propensos a ficar impressionados com as condições aparentemente únicas e belas que permitiram o surgimento de vida inteligente na Terra. Mas então, como somos vaidosos, ficaríamos impressionados, não? Essa vaidade nos permite negligenciar o fato implacável de que, apenas em relação aos corpos de nosso sistema solar, o restante é frio demais para suportar qualquer coisa reconhecível como vida, ou quente demais. O mesmo é verdade em nosso próprio lar planetário azul e redondo, onde o calor enfrenta o frio para tornar grandes áreas dele uma terra arrasada inútil e onde descobrimos que vivemos, e sempre temos vivido, no fio de uma navalha climática. Enquanto isso, o Sol está se preparando para explodir e devorar seus planetas dependentes como algum chefe ciumento ou divindade tribal. Que projeto!
Sabemos a resposta em todos esses casos: essas são invenções trabalhosas (também por tentativa e erro) da humanidade, foram obra de muitas mãos e ainda estão "evoluindo". Essas são as asneiras produzidas pelo sarcasmo ignorante criacionista, que compara a evolução a um redemoinho que passa por um depósito de ferro-velho e se sai com um jato jumbo. Para começar, não há peças espalhadas esperando ser reunidas. E o processo de aquisição e descarte de "peças" (principalmente asas) é muito diferente de um redemoinho. O tempo necessário é muito mais o de um glaciar que o de uma tempestade. Além disso, jatos jumbo não estão repletos de "peças" supérfluas ou não-funcionais inutilmente herdadas de aeronaves menos eficazes. Por que concordamos tão facilmente em chamar essa velha não-teoria detonada por seu novo disfarce astuciosamente escolhido de "projeto inteligente"? Definitivamente não há nada de "inteligente" nele. É a mesma velha conversa fiada.
Assim, caso você queira fazer a mais antiga das perguntas — por que os humanos existem? —, a maior parte da resposta, no que diz respeito aos aspectos da questão que a ciência pode abordar, deve ser: porque Pikaia sobreviveu ao massacre de Burgess. Esta resposta não cita uma só lei da natureza; ela não incorpora nenhuma afirmação sobre caminhos evolucionários previsíveis, nenhum cálculo de probabilidades baseado em regras gerais de anatomia ou ecologia. A sobrevivência Pikaia foi uma contingência de "pura história". Eu não acho que possa ser dada qualquer resposta mais "elevada" e não consigo imaginar qualquer resolução mais fascinante. Somos filhos da história, e precisamos definir nossos próprios caminhos neste que é o mais diversificado e interessante dos universos concebíveis — um que é indiferente ao nosso sofrimento, portanto nos oferece o máximo de liberdade para prosperar, ou fracassar, da forma como escolhermos.
Seguindo os passos de Darwin, nos últimos trinta anos Peter e Rosemary Grant, da Universidade de Princeton, foram às Ilhas Galápagos, viveram em condições difíceis na pequena ilha de Daphne Maior e realmente observaram e mediram a forma como tentilhões evoluíram e se adaptaram às mudanças no ambiente. Eles mostraram de forma conclusiva que o tamanho e a forma dos bicos dos tentilhões se ajustaram à seca e à falta de alimento, se adaptando ao tamanho e às características de diferentes sementes e besouros. Não apenas o bando original com três milhões de anos de idade mudou de uma só forma, como, se a situação de besouros e sementes retornar ao que era, os bicos podem acompanhar. Os Grant acompanharam, viram acontecer e publicaram suas descobertas e suas provas para todos verem. Estamos em dívida com eles. A vida deles foi difícil, mas quem poderia desejar que em vez disso eles tivessem se mortificado em uma gruta santificada ou no alto de em pilar sagrado?
Em 2005, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Chicago realizou um trabalho sério em dois genes, conhecidos como microcefalina e ASPM, que quando desativados causam a microcefalia. Bebês que nascem com essa condição têm um córtex cerebral reduzido, muito provavelmente um vestígio da época em que o cérebro humano era muito menor do que é hoje. Em geral acreditava-se que a evolução dos humanos tinha sido concluída há cerca de cinquenta ou sessenta mil anos (um instante em tempo evolucionário), mas aqueles dois genes aparentemente têm evoluído mais rapidamente nos últimos 37 mil anos, levantando a possibilidade de que o cérebro humano seja um work in progress. Em março de 2006, outro trabalho da mesma universidade revelou que há cerca de setecentas áreas do genoma humano em que os genes foram modificados pela seleção natural nos últimos cinco mil a quinze mil anos. Entre esses genes estão alguns responsáveis por nossas "sensações de paladar e olfato, digestão, estrutura óssea, cor da pele e função cerebral". (Um dos grandes resultados emancipadores do estudo do genoma é mostrar que todas as diferenças "raciais" e de cor são recentes, superficiais e enganadoras). É uma certeza moral que entre o momento em que eu termino de escrever este livro e o momento de sua publicação serão feitas muitas outras descobertas fascinantes e reveladoras nesse campo em expansão. Talvez seja cedo demais para dizer que todo progresso é positivo ou "para cima", mas o desenvolvimento humano ainda esta se processando. Isso é demonstrado no modo pelo qual adquirimos imunidades e também no modo pelo qual não adquirimos. Os estudos do genoma identificaram antigos grupos de europeus do norte que aprenderam a domesticar gado e adquiriram um gene específico para "tolerância à lactose", enquanto algumas pessoas de ascendência africana mais recente (todos somos originários da Africa) são mais sujeitas a uma forma de anemia falciforme que, embora problemática em si, resulta de uma mutação anterior que dava proteção contra a malária. E tudo isso será posteriormente esclarecido se formos modestos e pacientes o bastante para compreender os blocos de armar da natureza e a marca inferior de nossa origem. Não é necessário um plano divino, muito menos uma intervenção angelical. Tudo funciona sem essa suposição.
Não é preciso dizer que nenhum dos acontecimentos medonhos e desordeiros descritos no Êxodo jamais se deu. Os arqueólogos israelenses estão entre os mais profissionais do mundo, mesmo que seu estudo tenha sido algumas vezes infectado por um desejo de provar que o pacto entre Deus e Moisés teve algum fundamento. Nenhum grupo de escavadores ou acadêmicos trabalhou mais duro ou com maior expectativa que os israelenses que vasculharam as areias do Sinai e de Canaã. O primeiro deles foi Yigael Yadin, cujo trabalho mais conhecido foi realizado em Massada e que foi encarregado por David Ben-Gurion de desenterrar os "pequenos documentos" que justificariam a reivindicação por Israel da Terra Prometida. Até há pouco tempo, esses esforços evidentemente politizados tiveram alguma plausibilidade superficial. Mas depois foi realizado um trabalho muito mais abrangente e objetivo, apresentado principalmente por Israel Finkelstein, do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel-Aviv, e seu colega Neil Asher Silberman. Esses homens consideravam bela a "Bíblia Hebraica", ou Pentateuco, e viam a história da moderna Israel como uma grande inspiração no que diz respeito a um humilde apelo à diferença. Mas a conclusão deles é definitiva, e ainda mais confiável por colocar as provas acima do interesse pessoal. Não houve fuga do Egito, ninguém vagou pelo deserto (muito menos durante o inacreditável período de quatro décadas mencionado no Pentateuco), nem houve a conquista dramática da Terra Prometida. Tudo foi, muito simplesmente e de forma muito incompetente, inventado em uma época muito posterior. Também não há nenhuma crônica egípcia que mencione esse episódio, mesmo que de passagem, e o Egito foi a grande potência militar em Canaã e na região do Nilo em todas as épocas. Na verdade, boa parte das provas indica o contrário. A arqueologia confirma a presença de comunidades judaicas na Palestina há muitos milhares de anos (isso pode ser deduzido, entre outras coisas, pela ausência de ossos de porco nos monturos e vazadouros) e mostra que havia um "reino de Davi", embora modesto, mas todos os mitos mosaicos podem ser fácil e seguramente descartados. Não acho que esta seja o que os críticos amargos da fé algumas vezes chamam de conclusão "reducionista". É possível extrair um grande prazer do estudo da arqueologia e dos textos antigos, e também aprender muito. E isso sempre nos leva mais perto da verdade. Por outro lado, isso mais uma vez levanta a questão do antiteísmo. Em O futuro de uma ilusão, Freud destaca o ponto óbvio de que a religião sofria de uma deficiência incurável: era excessivamente fruto de nosso próprio desejo de fugir da ou sobreviver à morte. Essa crítica ao pensamento positivo é forte e irrespondível, mas ela na verdade não lida com os horrores, as crueldades e as loucuras do Velho Testamento. Quem — com exceção de um antigo sacerdote tentando conseguir poder se valendo do recurso testado e aprovado do medo — poderia desejar que essa trama lamentavelmente tecida de fábula contivesse qualquer verdade? Bem, os cristãos se entregaram à mesma tentativa esperançosa de "provar" muito antes de a escola sionista de arqueologia começar a trabalhar. A Epístola de São Paulo aos Gálatas transmitiu aos cristãos a promessa de Deus aos patriarcas judeus, como um patrimônio inviolado, e do século XIX ao início do século XX era difícil jogar uma casca de laranja na Terra Santa sem acertar um escavador fervoroso. O general Gordon, o fanático bíblico posteriormente massacrado pelo Mahdi(*) em Cartum, estava muito à frente. William Albright, de Baltimore, estava constantemente confirmando a Jericó de Josué e outros mitos. Alguns desses escavadores, dadas as técnicas primitivas da época, foram mais levados a sério do que considerados meros oportunistas. Também moralmente sérios: o arqueólogo dominicano francês Roland de Vaux se mostrou refém da sorte dizendo que "se a fé histórica de Israel não é baseada na história, essa fé é equivocada, e, portanto também a nossa". Uma observação bastante admirável e honesta, pela qual o bom padre merece o crédito.
13. A religião faz as pessoas se comportarem melhor? Pouco mais de um século após Joseph Smith ter caído vítima da violência e da loucura que ele tinha ajudado a liberar, outra voz profética se ergueu nos Estados Unidos. Um jovem pastor negro chamado dr. Martin Luther King começou a pregar que seu povo — os descendentes da mesma escravidão que Joseph Smith e todas as outras igrejas cristãs tinham tão calorosamente aprovado — deveria ser livre. É impossível mesmo para um ateu como eu ler seus sermões ou assistir a gravações de seus discursos sem uma profunda emoção daquele tipo que algumas vezes provoca lágrimas verdadeiras. A "Carta da Cadeia de Birmingham" do dr. King, escrita em resposta a um grupo de clérigos cristãos brancos que o conclamaram a demonstrar contenção e "paciência" — em outras palavras, a saber seu lugar —, é um modelo de retórica. Gelidamente polida e com disposição generosa, ela ainda exala uma irredutível convicção de que a sórdida injustiça do racismo não deve mais ser suportada. A magnífica biografia em três volumes do dr. King escrita por Taylor Branch é sucessivamente intitulada Parting the Waters, Pillar of Fire e At Cannans Edge. E a retórica com a qual King se dirigia a seus seguidores era concebida para evocar a própria história que todos eles conheciam melhor — aquela que começa quando Moisés diz pela primeira vez ao faraó: "Deixe meu povo partir." Discurso após discurso, ele inspirou os oprimidos e exortou e envergonhou seus opressores. Lentamente, a constrangida liderança religiosa do país passou para seu lado. O rabino Abraham Heschel perguntou: "Onde hoje na América ouvimos uma como a voz dos profetas de Israel? Martin Luther King é um sinal de que Deus não se esqueceu dos Estados Unidos da América." O mais extraordinário de tudo, se seguirmos a narrativa mosaica, foi o sermão que King fez na última noite de sua vida. Seu trabalho de transformar a opinião pública e mudar o teimoso governo Kennedy tinha sido quase concluído, e ele estava em Memphis, Tennessee, para apoiar uma longa e amarga greve dos coletores de lixo da cidade, em cujos cartazes apareciam as simples palavras "Eu sou um homem". No púlpito do Mason Temple, ele revisou a demorada luta dos anos anteriores, então repentinamente disse: "Mas isso não importa para mim agora." Houve silêncio, até que ele recomeçasse. "Porque eu estive no topo da montanha. E eu não me preocupo. Como qualquer um, eu gostaria de ter uma vida longa. A longevidade tem seu lugar. Mas não estou preocupado com isso agora. Quero apenas a vontade de Deus. E ele me permitiu ir ao topo da montanha. E eu olhei ao redor. E eu vi a Terra Prometida. Eu talvez não chegue até lá com vocês, mas eu quero que vocês saibam, esta noite, que como povo nós chegaremos à Terra Prometida!" Ninguém que estava lá naquela noite se esqueceu disso, e ouso dizer que o mesmo vale para qualquer um que veja o filme que com tanta felicidade foi feito daquele momento transcendente. A segunda melhor forma de experimentar esse sentimento em segunda mão é ouvir como Nina Simone cantou, naquela mesma semana terrível, "The King of Love Is Dead". No conjunto, o drama tem a capacidade de unir elementos de Moisés no monte Nebo com a agonia no Jardim de Getsêmani. O efeito praticamente em nada diminui mesmo quando descobrimos que aquele era um de seus sermões preferidos, um que ele tinha feito muitas vezes antes e ao qual podia apelar se a ocasião exigisse.
Tomando como nosso exemplo a memorável história da América negra, vamos descobrir, primeiramente, que os escravizados não eram cativos de algum faraó, mas de vários Estados e sociedades cristãs que durante muitos anos operaram um "comércio" triangular entre a costa oeste da África, o litoral leste da América do Norte e as capitais da Europa. Essa indústria imensa e terrível era abençoada por todas as igrejas e durante muito tempo não levantou qualquer protesto religioso. (Seu equivalente, o comércio de escravos no Mediterrâneo e no Norte da África era endossado explicitamente e levado a cabo em nome do islamismo.) No século XVIII, alguns dissidentes menonitas e quacres nos Estados Unidos começaram a pedir a abolição, assim como livres-pensadores como Thomas Paine. Thomas Jefferson, refletindo sobre o modo como a escravidão corrompia e brutalizava os mestres assim como explorava e torturava os escravos, escreveu: "De fato, tremo por meu país quando reflito que Deus é justo." Essa foi uma afirmação tão incoerente quanto memorável: dada a maravilha de um deus que também era justo, não haveria a longo prazo, muito pelo que tremer. Seja como for, o Todo-Poderoso conseguiu tolerar a situação enquanto várias gerações nasciam e morriam sob o açoite até que a escravidão se tornasse menos lucrativa e até mesmo o Império Britânico começasse a se livrar dela.
Assim, qualquer um que utilize o legado de King para justificar o papel da religião na vida pública precisa aceitar todos os corolários do que eles parecem estar querendo dizer. Uma olhada rápida no registro completo mostrará, primeiramente que, pessoa a pessoa, os livres-pensadores, agnósticos e ateus americanos são melhores. A possibilidade de que a opinião secular ou pensante de alguém o levasse a denunciar a completa injustiça era extremamente alta. A possibilidade de que a crença religiosa de alguém levasse a assumir uma posição contra a escravidão e o racismo era estatisticamente bastante pequena. Mas a possibilidade de que a crença religiosa de alguém o levasse a defender a escravidão e o racismo era estatisticamente bastante alta, e esse último fato nos ajuda a compreender por que a vitória da justiça simples demorou tanto tempo.
Toda a questão da independência da Índia estava interligada à questão da unidade: poderia a antiga colônia renascer como o mesmo pais, com as mesmas fronteiras e integridade territorial, e ainda ser chamada de Índia? A isso uma certa facção resistente de muçulmanos respondeu "não". Sob a administração britânica eles tinham desfrutado de alguma proteção como uma minoria muito grande para não dizer privilegiada, e não estavam dispostos a trocar esse estado de coisas para ser uma grande minoria em um Estado de domínio hindu. Assim, o simples fato de que a principal força pela independência — o Partido do Congresso — tinha um obvio domínio hindu tornava a conciliação muito difícil. Pode-se argumentar, e eu de fato irei argumentar, que a intransigência muçulmana teria desempenhado um papel destrutivo em qualquer caso. Mas a tarefa de convencer muçulmanos comuns a deixar o Congresso e se juntar à separatista "Liga Muçulmana" foi muito facilitada pelo discurso hinduísta de Ghandi e pelas longas horas ostentatórias que ele gastava em práticas religiosas e operando sua roca de fiar. Essa roca — que ainda aparece como símbolo na bandeira indiana — era um emblema da rejeição de Ghandi à modernidade. Ele passou a se vestir com farrapos que ele mesmo fazia, a usar sandálias, a carregar um cajado e a expressar hostilidade para com as máquinas e a tecnologia. Fazia rapsódias sobre a aldeia indiana, em que os ritmos milenares dos animais e das colheitas iriam determinar o modo de vida humano. Milhões de pessoas teriam irracionalmente morrido de fome se seu conselho tivesse sido seguido, e teriam continuado a idolatrar vacas (espertamente classificadas de "sagradas" pelos sacerdotes para que o povo pobre ignorante não matasse e comesse seu único patrimônio em épocas de seca e fome). Ghandi merece crédito por sua crítica ao desumano sistema de castas hindu, pelo qual ordens inferiores de humanos eram condenadas a um ostracismo e um desprezo que em certos sentidos eram mais absolutos e cruéis que a escravidão. Mas exatamente no momento em que a Índia mais precisava de um moderno líder nacionalista secular, recebeu um faquir e guru. O momento crucial dessa lamentável concepção aconteceu em 1941, quando o exército imperial japonês tinha conquistado Malásia e Burma e estava nas fronteiras da própria Índia. Acreditando (erradamente) que isso anunciava o fim do estado de colônia, Ghandi escolheu esse momento para boicotar o processo político e lançar seu famoso apelo aos britânicos de "Deixem a Índia". Ele acrescentou que eles deveriam deixá-la "A Deus ou à anarquia", o que nas circunstâncias teria significado a mesma coisa. Aqueles que ingenuamente atribuem a Ghandi um pacifismo consciente ou consistente deveriam se perguntar se isso não correspondia a deixar que os imperialistas japoneses travassem sua batalha por ele.
Essa roca — que ainda aparece como símbolo na bandeira indiana — era um emblema da rejeição de Ghandi à modernidade. Ele passou a se vestir com farrapos que ele mesmo fazia, a usar sandálias, a carregar um cajado e a expressar hostilidade para com as máquinas e a tecnologia. Fazia rapsódias sobre a aldeia indiana, em que os ritmos milenares dos animais e das colheitas iriam determinar o modo de vida humano. Milhões de pessoas teriam irracionalmente morrido de fome se seu conselho tivesse sido seguido, e teriam continuado a idolatrar vacas (espertamente classificadas de "sagradas" pelos sacerdotes para que o povo pobre ignorante não matasse e comesse seu único patrimônio em épocas de seca e fome). Ghandi merece crédito por sua crítica ao desumano sistema de castas hindu, pelo qual ordens inferiores de humanos eram condenadas a um ostracismo e um desprezo que em certos sentidos eram mais absolutos e cruéis que a escravidão. Mas exatamente no momento em que a Índia mais precisava de um moderno líder nacionalista secular, recebeu um faquir e guru. O momento crucial dessa lamentável concepção aconteceu em 1941, quando o exército imperial japonês tinha conquistado Malásia e Burma e estava nas fronteiras da própria Índia. Acreditando (erradamente) que isso anunciava o fim do estado de colônia, Ghandi escolheu esse momento para boicotar o processo político e lançar seu famoso apelo aos britânicos de "Deixem a Índia". Ele acrescentou que eles deveriam deixá-la "A Deus ou à anarquia", o que nas circunstâncias teria significado a mesma coisa. Aqueles que ingenuamente atribuem a Ghandi um pacifismo consciente ou consistente deveriam se perguntar se isso não correspondia a deixar que os imperialistas japoneses travassem sua batalha por ele.
Sempre houve uma alternativa, na forma da posição secular adotada por Nehru e Rajagopalachari, que negociaram um compromisso britânico de imediata independência pós-guerra em troca de uma aliança comum entre Índia e Grã-Bretanha contra o fascismo. No caso, foi Nehru e não Ghandi, quem levou seu país à independência, mesmo ao lamentável preço da divisão. Durante décadas, uma sólida irmandade entre secularistas e esquerdistas britânicos e indianos tinha iniciado e vencido a discussão sobre a libertação da Índia. Nunca houve necessidade de que um personagem religioso obscurantista impusesse seu ego ao processo e ao mesmo tempo o retardasse e distorcesse. Toda a questão estava resolvida sem essa suposição. Há o desejo contínuo de que Martin Luther King tivesse continuado vivo e contribuído com sua presença e sua sabedoria para a política americana. No caso do "Mahatma", que foi assassinado por membros de uma seita hindu fanática por não ser suficientemente devoto, há o desejo de que ele tivesse vivido apenas para ver o dano que ele teria produzido (e há o alívio de que ele não tivesse vivido para implementar seu delirante programa de rocas de fiar). O argumento de que a crença religiosa melhora as pessoas ou ajuda a civilizar a sociedade costuma ser apresentado quando as pessoas já esgotaram suas justificativas. É como se elas dissessem: muito bem, nós paramos de insistir no Êxodo (digamos), na Imaculada Conceição ou mesmo na Ressurreição ou no "voo noturno" de Meca a Jerusalém. Mas onde estariam as pessoas sem a fé? Elas não se entregariam a todo tipo de licenciosidade e egoísmo? Não é verdade, como G. K. Chesterton disse certa vez, que se as pessoas param de acreditar em Deus elas não passam a acreditar em nada, mas em qualquer coisa?
A primeira coisa a dizer é que o comportamento virtuoso de um crente não é de modo algum prova — de fato não é sequer argumento — da verdade de sua crença. Eu poderia, apenas para continuar a discussão, agir de forma mais caridosa se eu acreditasse em que o Senhor Buda nasceu de uma incisão no flanco de sua mãe. Mas isso não faria meu impulso caridoso depender de algo muito tênue? Da mesma forma, eu não digo que se eu flagrar um sacerdote budista roubando todas as oferendas deixadas pelo povo simples em seu templo, o budismo estará, portanto, desacreditado. E de qualquer forma, esquecemos de quão fortuito é tudo isso. Dos milhares de possíveis religiões do deserto, assim como dos milhões de espécies em potencial, um ramo por acaso deitou raízes e cresceu. Passando por mutações de uma forma judaica a uma cristã, ela acabou sendo adotada, por razões políticas, pelo imperador Constantino e foi transformada em crença oficial com — no final — uma forma codificada e obrigatória de seus muitos livros caóticos e contraditórios. Quanto ao islamismo, ele se tornou a ideologia de uma conquista altamente bem-sucedida, adotada por dinastias governantes de sucesso, e então codificada, estabelecida e promulgada como lei da terra. Uma ou duas vitórias militares do outro lado — como no caso de Lincoln em Antietam — e nós no Ocidente não seríamos reféns de disputas provincianas que aconteceram na Judeia e na Arábia antes que houvesse registros. Poderíamos ser devotos de uma crença inteiramente diferente — talvez hindu, asteca ou confucionista —, e nesse caso ainda nos seria dito que, sendo ou não verdade, ela ainda assim ajudaria a ensinar às crianças a diferença entre certo e errado. Em outras palavras, acreditar em um deus é de certa forma exprimir exatamente a disposição de acreditar em qualquer coisa. Porém, de modo algum rejeitar a crença é professar a crença em nada. Eu certa vez assisti a um debate entre o falecido professor A. J. Ayer, distinto autor de Linguagem, verdade e lógica, e festejado humanista, e um certo bispo Butler. O mediador era o filósofo Bryan Magee. O debate desenrolou muito educadamente até o bispo, ouvindo Ayer afirmar que não via nenhum indício da existência de qualquer deus, interromper e dizer: "Então eu não consigo entender como você não leva uma vida de desabrida imoralidade." Nesse ponto, "Freddie", como era conhecido pelos amigos, abandonou sua normal civilidade serena e exclamou: "Devo dizer que considero isso uma insinuação absolutamente monstruosa." Freddie certamente tinha violado a maioria dos mandamentos referentes ao código sexual como esboçados no Sinai. De certa forma, ele era justificadamente famoso por isso. Mas ele era um excelente professor, um pai amoroso e um homem que dedicava a maior parte de seu tempo livre a lutar pelos direitos humanos e pela liberdade de expressão. Dizer que sua vida era imoral era falsear a verdade. Dos muitos escritores que exemplificaram o mesmo ponto de forma diferente, eu escolho Evelyn Waugh, que tinha a mesma crença do bispo Butler e que em sua ficção fez de tudo para defender as intervenções da graça divina. Em seu romance Memórias de Brideshead ele faz uma observação muito precisa. Os dois protagonistas, Sebastian Flyte e Charles Ryder, o primeiro dos quais herdeiro de uma nobreza católica, recebem a visita de padre Phipps, que acredita que todos os jovens devem ser apaixonados por críquete. Quando se desilude, ele olha para Charles "com a expressão que eu sempre vi nos religiosos, de espanto inocente de que aqueles que se expõem aos perigos do mundo aproveitem tão pouco de seus variados confortos". Assim, eu volto à questão do bispo Butler. Ele na verdade não estava dizendo a Ayer, em seu próprio jeito ingênuo, que, se libertado das restrições da doutrina, ele próprio escolheria levar "uma vida de desabrida imoralidade"? Naturalmente espera-se que não. Mas há evidências empíricas para reforçar a sugestão. Quando padres se comportam mal, eles se comportam realmente mal, e cometem crimes que empalideceriam o pecador médio. Pode-se preferir atribuir isso mais à repressão sexual que às doutrinas pregadas, mas uma das doutrina pregadas é a repressão sexual... Assim, a ligação é inevitável, e uma litania de piadas folclóricas foi recitada por todos os membros leigos da Igreja desde o início da religião. A vida do próprio Waugh foi muito mais manchada por crimes contra a castidade e a sobriedade do que a vida de Ayer (apenas parece ter dado menos alegria ao primeiro que ao segundo), e em consequência ele frequentemente era perguntado sobre como conciliar seu comportamento particular com sua crença pública. Sua resposta se tornou famosa: ele pedia a seus amigos que imaginassem como ele seria pior se não fosse católico. Para quem acredita em pecado original poderia servir como uma virada de mesa, mas qualquer investigação da vida real de Waugh mostra que seus elementos mais iníquos são fruto precisamente de sua fé. Esqueçam os tristes excessos de embriaguez e infidelidade conjugal. Ele certa vez enviou um telegrama de casamento a uma amiga divorciada e casada em segundas núpcias dizendo a ela que sua noite de núpcias aumentaria a solidão do Calvário e seria mais uma cusparada no rosto de Cristo. Ele apoiou movimentos fascistas na Espanha e na Croácia e a cruel invasão da Abissínia por Mussolini porque tinham o apoio do Vaticano, e escreveu em 1944 que apenas o Terceiro Reich era a barreira entre a Europa e a barbárie. Essas deformações em um de meus autores prediletos não existiam apesar da sua fé, mas exatamente por causa dela. Sem dúvida havia atos particulares de caridade e contrição, mas eles podiam ser igualmente praticados por uma pessoa sem qualquer fé. Sem ir além dos Estados Unidos, o grande coronel Robert Ingersoll, que foi o maior defensor da descrença no país até sua morte em 1899, enlouquecia seus adversários por ser uma pessoa de imensa generosidade, marido e pai constante e amoroso, oficial cavalheiresco e dotado do que Thomas Edison, com desculpável exagero, chamou de "todos os atributos de um homem perfeito". Em minha própria vida recente em Washington tenho sido bombardeado com telefonemas obscenos e ameaçadores de muçulmanos, prometendo punir minha família porque eu não apoio uma campanha de mentiras, ódio e violência contra a democrática Dinamarca. Mas, quando minha esposa acidentalmente deixou um grande volume de dinheiro no banco de trás de um táxi, o motorista sudanês teve muito trabalho e despesas para descobrir de quem ele era e dirigir até minha casa para devolvê-lo intocado. Quando eu cometi o erro vulgar de oferecer a ele dez por cento do dinheiro, ele deixou serena mas firmemente claro que não esperava recompensa por cumprir sua obrigação islâmica. Em qual dessas duas versões da fé se deve confiar? A pergunta é de certa forma absolutamente irrespondível. Eu preferiria manter a prateleira de escritos de Evelyn Waugh exatamente como está, e aceitar que não é possível ter os romances sem os tormentos e as maldades de seu autor. E se todos os muçulmanos se comportassem da mesma forma que o homem que abriu mão de mais de uma semana de trabalho para fazer a coisa certa, eu poderia ser indiferente às estranhas exortações do Corão. Se eu vasculhar minha vida em busca de momentos de comportamento bom ou correto, não serei sufocado por um excesso de escolhas. Certa vez, tremendo de medo, tirei meu colete à prova de balas em Sarajevo e o emprestei a uma mulher ainda mais assustada que eu estava ajudando a conduzir a um local seguro (eu não sou o único a ter sido ateu nas trincheiras). Na época achei que era o mínimo que eu podia fazer por ela, assim como o máximo. As pessoas que bombardeavam e atiravam eram cristãos sérvios, mas ela também.
Um exemplo ainda mais claro é o caso de Ruanda, que em 1992 deu ao mundo um novo sinônimo para genocídio e sadismo. Essa antiga possessão belga é o país mais cristão da África, exibindo a maior proporção de igrejas per capita, 65 por cento dos ruandeses professando o catolicismo romano e outros 15 por cento pertencentes a várias seitas protestantes. As palavras per capita ganharam um tom macabro em 1992, quando a um sinal as milícias racistas do Poder Hutu, incitadas pelo Estado e pela Igreja, se lançaram sobre seus vizinhos tútsis e os chacinaram em massa. Não foi um espasmo atávico de derramamento de sangue, e sim uma versão africana friamente ensaiada da Solução Final, que estava sendo preparada havia algum tempo. O primeiro sinal disso surgiu em 1987, quando um visionário católico com o nome enganadoramente folclórico de Little Pebbles começou a anunciar que ouvia vozes e tinha visões, derivadas da Virgem Maria. As ditas vozes e visões eram perturbadoramente sanguinárias, prevendo massacre e apocalipse, mas também — como em compensação — o retorno de Jesus Cristo no domingo de Páscoa de 1994. Aparições de Maria no alto de uma montanha chamada Kibeho foram investigadas pela Igreja Católica e consideradas confiáveis. A esposa do presidente de Ruanda, madame Agathe Habyarimana, ficou especialmente fascinada com essas visões e mantinha um relacionamento próximo com o bispo de Kigali, a capital do país. Esse homem, o monsenhor Vincent Nsengiyumva, era também membro do comitê central do partido único do presidente Habyarimana, o Movimento Nacional Revolucionário pelo Desenvolvimento, ou MRND. O partido, juntamente com outros órgãos do Estado, se preocupava em prender quaisquer mulheres que fossem desaprovadas como sendo "prostitutas" e em encorajar ativistas católicos a atacar quaisquer lojas que vendessem contraceptivos. Com o tempo, se espalhou a notícia de que a profecia seria cumprida e que as "baratas" — a minoria tútsi — logo teriam o que mereciam.As variedades da experiência religiosa, de William James.) - livro
Embora eu pessoalmente ache que a população tâmil tem um razoável ressentimento contra o governo central, não possível perdoar a liderança de sua guerrilha por ter sido a pioneira, muito antes do Hezbollah e da Al-Qaeda, na lamentável tática do assassinato suicida. Essa técnica bárbara, que também foi empregada por eles para assassinar um presidente eleito da Índia, não desculpa os pogroms de tâmeis liderados pelos budistas ou o assassinato, por um sacerdote budista, do primeiro presidente eleito do Sri Lanka independente. Alguns dos leitores destas páginas ficarão compreensivelmente chocados ao descobrirem a existência de assassinos e sádicos hindus e budistas. Talvez eles imaginem vagamente que orientais contemplativos, devotados a dietas vegetarianas e rotinas meditativas, são imunes a essas tentações. Pode-se até argumentar que o budismo não é, no sentido que damos à palavra, uma "religião". Ainda assim, Buda teria deixado um de seus dentes no Sri Lanka, e eu certa vez participei de uma cerimônia que envolvia uma rara apresentação pública, pelos sacerdotes, desse objeto engastado em ouro. O bispo Heber não mencionou osso em seu hino idiota, talvez porque os cristãos sempre se congregaram para se curvarem a ossos de supostos santos e para mantê-los em medonhos relicários em suas igrejas e catedrais. Como quer que seja, na "propiciação dental" eu não tive qualquer sensação de paz e bem-aventurança interna. Ao contrário, eu me dei conta de que teria uma grande chance de ser desmembrado se fosse tâmil. A espécie humana é uma espécie animal sem grande variedade interna, e é vão e fútil imaginar que uma viagem, digamos, ao Tibete revele uma harmonia inteiramente diferente com a natureza ou a eternidade. O Dalai Lama, por exemplo, é total e facilmente identificável como um secularista. Exatamente da mesma forma como um principezinho medieval, ele alega não apenas que o Tibete deve ser independente da hegemonia chinesa — uma exigência "perfeitamente boa", se posso apresentar assim na linguagem cotidiana —, mas que ele mesmo é um rei hereditário escolhido pelos céus. Quão conveniente! Seitas dissidentes de sua fé são perseguidas; seu governo personalista em um enclave indiano é absoluto. Ele faz pronunciamentos absurdos sobre sexo e dieta e, quando em suas visitas a arrecadadores de recursos de Hollywood, unge grandes doadores como Steven Segal e Richard Gere, como santos. (Na verdade, o sr. Gere fez um beicinho quando o sr. Segal foi investido como tulku, uma pessoa de grande iluminação. Deve ser chato ser superado por um lance em um leilão espiritual como esse.) Devo admitir que o atual "Dalai", ou lama supremo, é um homem de algum encanto e presença, como admito que a atual rainha da Inglaterra é uma pessoa de mais integridade que a maioria de seus predecessores, mas isso não invalida a crítica à monarquia hereditária, e os primeiros estrangeiros em visita ao Tibete ficaram imediatamente chocados com o domínio feudal e as punições hediondas que mantinham a população em permanente servidão a uma elite monástica parasitária.
Isso segue a linha adotada pelo xintoísmo — outra quase religião que desfrutava do apoio do Estado — de que os soldados japoneses realmente tombavam pela causa da independência asiática. Todos os há uma famosa controvérsia sobre se os líderes civis e espirituais do Japão devem visitar o santuário de Yakasuni, que oficialmente enobrece o exército de Hiroshito. Todos os anos, milhões de chineses, coreanos e birmaneses protestam dizendo que o Japão não era o inimigo do imperialismo ocidental no Oriente, e sim uma forma nova e mais criminosa dele, e que o santuário de Yakasuni é um local de horrores. Contudo, é interessante notar que os budistas japoneses da época consideravam a filiação de seu país ao Eixo nazifascista uma manifestação de teologia da libertação. Ou, como declarou na época a liderança budista unificada: De modo a estabelecer a paz eterna na Ásia Oriental, suscitando a grande benevolência e compaixão do budismo, somos algumas vezes acolhedores e algumas vezes vigorosos. Agora não temos escolha a não ser exercer o vigor benevolente de "matar um para que muitos vivam" (issatsu tasho). Isso é algo que o budista mahaiana aprova apenas com grande seriedade. Nenhum defensor da "guerra santa" ou da "cruzada" poderia dizer melhor. A parte da "paz eterna" é particularmente excelente. Ao final do conflito pavoroso que o Japão tinha iniciado, eram os sacerdotes budistas e xintoístas que estavam recrutando e treinando os fanáticos bombardeiros suicidas, ou camicazes ("vento divino"), assegurando a eles que o imperador era um "Rei Sagrado que Gira a Roda Dourada", de fato uma das quatro manifestações do monarca budista ideal e um Tathagata, ou "ser completamente iluminado" do mundo material. E como "Zen trata a vida e a morte indiferentemente", por que não abandonar as preocupações deste mundo e adotar uma política de prostração aos pés de um ditador homicida?
15. A religião como pecado original De fato, há várias formas pelas quais a religião é não apenas amoral, mas decididamente imoral. E essas falhas e esses crimes não são encontrados no comportamento de seus adeptos (que algumas vezes pode ser exemplar), mas em seus preceitos originais. Entre eles: ? Apresentar um retrato falso do mundo aos inocentes e crédulos. ? A doutrina do sacrifício de sangue. ? A doutrina da expiação. ? A doutrina da recompensa e/ou punição eternas. ? A imposição de tarefas e regras impossíveis. O primeiro ponto já foi abordado. Todos os mitos de criação de todos os povos são há muito reconhecidos como falsos, e eles muito recentemente foram substituídos por explicações infinitamente superiores e mais magníficas. A sua lista de desculpas a religião deveria simplesmente acrescentar uma desculpa por impingir pergaminhos feitos pelo homem e mitos folclóricos aos ingênuos e por demorar tanto a admitir que isso foi feito. Percebe-se a relutância em fazer essa admissão, já que isso poderia levar à destruição de toda a visão de mundo religiosa, mas quanto mais isso demora mais hedionda a negação se torna.
Sacrifício de sangue Antes do surgimento do monoteísmo, os altares da sociedade primitiva cheiravam a sangue, muito dele humano, sendo parte de bebês. A sede disso, pelo menos em forma animal, ainda está conosco. Judeus devotos estão neste momento tentando criar a imaculadamente pura "novilha vermelha" mencionada no Livro dos Números, capítulo 19, que, se sacrificada mais uma vez de acordo com o ritual exato e meticuloso, irá produzir a volta dos sacrifícios animais no Terceiro Templo e acelerar o final dos tempos e o advento do Messias. Isso pode parecer apenas absurdo, mas uma equipe de fazendeiros cristãos igualmente maníacos está tentando, no momento em que escrevo, ajudar seus colegas fundamentalistas utilizando técnicas de criação especiais (tomadas emprestadas ou roubadas da ciência moderna) para produzir um animal "Red Angus" perfeito em Nebraska. Enquanto isso, em Israel, os judeus fanáticos pela Bíblia também estão tentando criar uma criança humana em uma "bolha" pura, livre de contaminação. Quando essa criança atingir a idade certa, terá o privilégio de cortar a garganta daquela novilha. Isso idealmente deveria ser feito no monte do Templo, que de forma incômoda é espaço dos locais sagrados muçulmanos, mas ainda assim o ponto exato em que Abraão supostamente teria erguido a faca acima do corpo vivo de seu próprio filho. Outras eviscerações e degolas rituais, especialmente de ovelhas, ocorrem todos os anos nos mundos cristão e judaico, para celebrar a Páscoa ou a festa de Eid.
Contudo, isso mais inicia a discussão do que a encerra. Pode haver muitas circunstâncias em que não é desejável carregar um feto até o fim. Tanto a natureza quanto Deus parecem reconhecer isso, já que um grande número de gestações é "abortado", por assim dizer, por causa de malformações, casos que são educadamente classificados de "espontâneos". Por mais triste que seja, provavelmente é um resultado menos infeliz que o enorme número de crianças idiotas e deformadas que de outro modo teriam nascido, ou nascido mortas, ou cujas breves vidas teriam sido um tormento para si mesmas e para os outros. Portanto como acontece com a evolução em geral, vemos no útero um microcosmo da natureza e da própria evolução. Inicialmente começamos como pequenas formas anfíbias, depois gradualmente desenvolvemos pulmões e cérebros ( e produzindo e descartando aquele hoje inútil casaco de pele), depois abrindo passagem e respirando ar fresco após uma transição um tanto difícil. Da mesma forma, o sistema é bastante impiedoso na eliminação daqueles que para começar nunca teriam uma boa chance de sobrevivência: nossos ancestrais nas savanas não iriam sobreviver se tivessem um punhado de bebês doentes e imbecis para proteger dos predadores. Aqui a analogia da evolução pode não ser tanto a "mão invisível" de Adam Smith (uma expressão da qual eu sempre desconfiei) quanto o modelo de Joseph Schumpeter de "destruição criativa", pelo qual nos acostumamos a uma certa dose de fracassos naturais, levando em conta a natureza impiedosa e remontando aos protótipos distantes de nossa espécie. Assim, nem todas as concepções irão levar, ou já levaram, a nascimentos. E, desde que começou a perder força a mera luta pela sobrevivência, tem sido uma ambição da inteligência humana, assumir o controle da taxa de reprodução. Famílias que estão à mercê da simples natureza, com sua inevitável exigência de profusão, estarão presas a um ciclo que não é muito melhor que o dos animais. A melhor forma de conseguir um mecanismo de controle é a profilaxia, que tem sido incansavelmente buscada desde o início da história e que em nossa própria época se tornou relativamente à prova de falhas e indolor. A segunda melhor solução, que algumas vezes pode ser desejada por outras razões, é a interrupção da gravidez, um expediente que é lamentado por muitos mesmo quando foi utilizado por absoluta necessidade. Todas as pessoas que pensam reconhecem nessa questão um conflito doloroso entre direitos e interesses, e se esforçam para conseguir um equilíbrio. A única proposição absolutamente inútil, moral ou praticamente, é a afirmação selvagem de que espermatozoides e óvulos são vidas potenciais que não podem ser impedidas de se fundir e que quando unidas, por mais brevemente que seja, têm almas e precisam ser protegidas por lei. Com base nisso, um dispositivo intrauterino que impeça um óvulo de aderir à parede do útero é uma arma mortal, e uma gravidez ectópica (o acidente desastroso que faz com que o óvulo cresça dentro do tubo de falópio) é uma vida humana e não um óvulo já condenado que também é uma ameaça premente à vida da mãe. Cada passo no sentido do esclarecimento dessa discussão enfrentou a oposição férrea do clero. Até mesmo a tentativa de educar as pessoas para a possibilidade de "planejamento familiar" foi desde o início punida com anátema, e seus primeiros defensores e professores (como John Stuart Mill) foram detidos, jogados na cadeia ou demitidos de seus empregos. Há poucos anos, Madre Teresa denunciou a contracepção como o equivalente moral do aborto, o que "logicamente" significava (já que ela considerava o aborto um assassinato) que um preservativo ou uma pílula também eram armas letais. Ela era um pouco mais fanática até mesmo que sua igreja, porém mais uma vez podemos ver que o dogmático persistente é o inimigo moral do bem. Ele exige que acreditemos no impossível e pratiquemos o inalcançável. Toda a defesa da extensão da proteção aos não-nascidos e à definição de uma tendência a favor da vida tem sido arruinada por aqueles que usam crianças não-nascidas, assim como as nascidas, como meros objetos de manipulação de sua doutrina.
Em épocas mais recentes foram apresentados alguns argumentos pseudo-seculares a favor da circuncisão masculina. Foi dito que o processo é mais higiênico para o macho e, portanto, mais saudável para as mulheres, ajudando-as a evitar, por exemplo, o câncer de colo de útero, A medicina desmontou essa argumentação, ou a apresentou como um problema que pode ser facilmente resolvido com um "afrouxamento" do prepúcio. A completa ablação, originalmente determinada por Deus como o preço de sangue pelo prometido massacre futuro dos cananeus, foi denunciado como sendo o que é — a mutilação de um bebê indefeso com o objetivo de arruinar sua vida sexual futura. A ligação entre barbárie religiosa e repressão sexual não pode ser mais clara do que quando está "marcada na carne". Quem pode somar o número de vidas que foram tornadas infelizes dessa forma, especialmente desde que médicos cristãos começaram a adotar o antigo folclore judaico em seus hospitais? E quem consegue ler os livros e os históricos médicos que registram serenamente o número de bebês do sexo masculino que morreram de infecção depois do oitavo dia, ou que sofreram grosseiras e insuportáveis disfunções e desfigurações? O registro de infecções por sífilis e outras doenças, em função dos dentes podres de rabinos ou outras indiscrições rabínicas, ou de cortes desajeitados da uretra ou de uma veia é simplesmente tenebroso. E isso é permitido em Nova York em 2006! Se a religião e sua arrogância não estivessem envolvidas, nenhuma sociedade saudável permitiria essa amputação primitiva ou aceitaria que fosse realizada uma operação na genitália sem o consentimento explícito e informado da pessoa envolvida. A religião igualmente deve ser culpada das consequências hediondas do tabu da masturbação (que também ofereceu mais uma desculpa para a circuncisão entre os vitorianos). Durante décadas, milhões de jovens e garotos ficaram aterrorizados na adolescência por conselhos supostamente "médicos" que os preveniam contra cegueira, colapso nervoso e mergulho na insanidade se eles apelassem para a gratificação pessoal. Sermões severos de clérigos, repletos de absurdos como o sêmen ser uma fonte de energia insubstituível e finita, dominaram a criação de várias gerações. Robert Baden-Powell escreveu todo um tratado obsessivo sobre o tema, que ele usava para reforçar o cristianismo vigoroso de seu movimento de escoteiros. Até hoje a loucura sobrevive em sites islâmicos na internet que se propõem a oferecer aconselhamento aos jovens. De fato, os mulás aparentemente têm usado os mesmos textos desacreditados de Samuel Tissot, entre outros, que costumavam ser empregados por seus antecessores cristãos para atingir o mesmo efeito. A mesma desinformação infeliz e suja é oferecida, especialmente pelo falecido Abd al-Aziz bin Baz, o grande mufti(*) a Arábia Saudita, cujos alertas contra o onanismo são repetidos em muitos sites islâmicos. O hábito irá prejudicar o sistema digestivo, alerta ele, afetar a visão, inflamar os testículos, gastar a medula espinhal ("o local de origem do esperma"!) e levar a tremores e ataques. As "glândulas cerebrais" também são afetadas, com respondente declínio do QI e eventual insanidade. Para terminar, e ainda atormentando milhões de jovens saudáveis com culpa e preocupação, o mufti diz a eles que seu sêmen ficará ralo e insípido, os impedindo de posteriormente serem pais. Os sites Inter-Islam e Islamic Voice reciclam esse lixo como se já não houvesse suficiente repressão e ignorância entre os jovens no mundo muçulmano, que frequentemente são mantidos afastados de toda companhia feminina, de fato ensinados a desprezar suas mães e irmãs e submetidos à recitação gasta e estupidificante do Corão. Tendo conhecido alguns dos produtos desse sistema "educacional'' no Afeganistão e em outros lugares, eu só posso reiterar que o problema deles nem é tanto que eles desejem virgens, mas que eles sejam virgens: seu crescimento racional e psíquico foi irremediavelmente prejudicado em nome de Deus, e a segurança dos outros, ameaçada como consequência dessa alienação e deformação.
17. Uma objeção antecipada: o "argumento" desesperado contra o secularismo Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fabulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância. Eu tentei lidar com as objeções mais claramente baseadas na fé à medida que foram surgindo ao longo da discussão, mas há um último ponto que não pode ser evitado. Quando já foi dito o pior sobre a Inquisição, os julgamentos de bruxas, as Cruzadas, as conquistas imperiais islâmicas e os horrores do Velho Testamento, não é verdade que regimes seculares e ateus cometeram crimes e massacres que são, na escala das coisas, pelo menos tão ruins, quando não piores? E o corolário não é o de que homens livres da reverência religiosa irão agir da forma mais desabrida e abandonada? Em seu Os irmãos Karamázov, Dostoievski foi extremamente crítico em relação à religião (e vivia sob o despotismo que era santificado pela Igreja) e também apresentou seu personagem Smerdiakov como uma figura vã, crédula e idiota, mas a Smerdiakov — de que "se Deus não existe não há moral" — compreensivelmente encontra eco naqueles que vem a Revolução Russa através do prisma do século XX. É possível ir além e dizer que o totalitarismo secular de fato nos deu um resumo do mal humano. Os exemplos mais utilizados — os regimes de Hitler e Stalin — nos mostram com terrível clareza o que acontece quando os homens usurpam o papel dos deuses. Quando eu consulto meus amigos seculares e ateus, descubro que essa se tornou a objeção mais comum e frequente que eles ouvem de plateias religiosas. O ponto merece uma réplica detalhada. Para começar devagar, é interessante descobrir que as pessoas de fé hoje buscam dizer defensivamente que não são piores que fascistas, nazistas ou stalinistas. Seria de esperar que a religião tivesse preservado um pouco mais de sua dignidade. Não diria que as fileiras do secularismo e do ateísmo estão exatamente abarrotadas de comunistas ou fascistas, mas pelo bem do debate pode-se considerar certo que, assim como secularistas e ateus resistiram a tiranias clericais e teocráticas, os crentes religiosos resistiram às pagãs e materialistas. Mas isso seria apenas dividir a diferença. A palavra "totalitário" provavelmente foi utilizada pela primeira vez pelo dissidente marxista Victor Serge, que ficou chocado com os frutos do stalinismo na União Soviética. Ela foi popularizada pela intelectual judia secular Hannah Arendt, que escapou do inferno do Terceiro Reich e escreveu Origens do totalitarismo. É um termo útil, porque ele distingue as formas "comuns" de despotismo — aqueles que se limitam a exigir obediência de seus súditos — dos sistemas absolutistas que exigem que os cidadãos se transformem inteiramente em súditos e entreguem suas vidas particulares e suas personalidades ao Estado, ou ao líder supremo.
Isso continuou a ser verdade mesmo quando o direito divino dos déspotas começou a dar lugar a versões da modernidade. A ideia de um Estado utópico na Terra, talvez modelado a partir de algum ideal celestial, é muito difícil de eliminar, e levou as pessoas a cometer crimes terríveis em nome do ideal. Uma das primeiras tentativas de criar uma sociedade edênica ideal como essa, baseada no conceito de igualdade humana, foi o Estado socialista totalitário estabelecido pelos missionários jesuítas no Paraguai. Ele conseguiu combinar o máximo de igualitarismo com o máximo de falta de liberdade, e só pôde ser sustentado pelo máximo de medo. Isso deveria ser um alerta para aqueles que buscam aperfeiçoar a espécie humana. Mas o objetivo de aperfeiçoara espécie — que é a própria raiz e a fonte do impulso totalitário — é essencialmente religioso. George Orwell, o descrente ascético cujos romances nos deram um retrato indelével de como realmente é a vida em um Estado totalitário, não tinha dúvidas sobre isso. Escreveu ele em "The Prevention of Literature de 1946: "Do ponto de vista totalitário, a história é algo a ser criado, mais que aprendido. Um Estado totalitário é na verdade uma teocracia, e sua casta governante, de modo a manter sua posição, tem de ser considerada infalível." (Você perceberá que ele escreveu isso em um ano em que, tendo combatido o fascismo durante mais de uma década, estava voltando suas armas cada vez mais contra os simpatizantes do comunismo.)
O único livro que tinha alertado antecipadamente para tudo isso, trinta anos antes foi uma obra pequena mas brilhante publicada em 1919 e intitulada Prática e teoria do bolchevismo. Muito antes de Arthur Koestler e Richard Crossman terem começado a pesquisar os destroços retrospectivamente, todo o desastre estava sendo previsto em termos que ainda despertam admiração por sua presciência. O analista cáustico da nova religião era Bertrand Russell, cujo ateísmo o tornou ainda mais previdente do que muitos "socialistas cristãos" ingênuos que alegaram identificar na Rússia o inicio de um novo paraíso na Terra. Ele também era mais previdente do que o establishment cristão anglicano de sua Inglaterra natal, cujo principal jornal, o Times de Londres, assumiu o ponto de vista de que a Revolução Russa podia ser explicada pelo Protocolo dos sábios do Sião. Essa falsificação revoltante feita por agentes secretos ortodoxos russos foi republicada por Eyre and Spottiswoode, impressora oficial da Igreja da Inglaterra.
O fascismo — o precursor e modelo do nacional-socialismo — foi um movimento que acreditava em uma sociedade orgânica e corporativa, presidida por um líder ou guia. (As "fasces" — símbolo dos "lictores", ou guardas da Roma antiga — eram feixes de varas amarrados a uma machadinha, sinal de unidade e autoridade.) Surgindo da miséria e da humilhação da Primeira Guerra Mundial, os movimentos fascistas defendiam os valores tradicionais contra o bolchevismo e pregavam o nacionalismo e a piedade. Provavelmente não é coincidência que tenham surgido inicialmente, e de forma mais entusiasmada, em países católicos, e certamente não é coincidência que a Igreja Católica em geral fosse simpática ao fascismo como ideia. Não apenas a Igreja via o comunismo como um inimigo mortal, mas também via seu inimigo judeu mais antigo nas mais altas fileiras do partido de Lenin. Benito Mussolini mal tinha tomado o poder na Itália e o Vaticano já estava fazendo com ele um tratado oficial, conhecido como Tratado de Latrão de 1929. Pelos termos do acordo, o catolicismo se tornou a única religião reconhecida na Itália, com monopólio em questões de nascimento, casamento, morte e educação, e em troca conclamava seus seguidores a votar no partido de Mussolini. O Papa Pio X descreveu il Duce ("o líder") como "um homem enviado pela Providência". Eleições não seriam uma característica da vida italiana por muito tempo, mas a Igreja ainda assim levou à dissolução dos partidos católicos leigos de centro e ajudou a financiar um pseudopartido chamado "Ação Católica", que foi copiado em muitos países. Por todo o sul da Europa, a Igreja foi uma aliada confiável na instalação de regimes fascistas na Espanha, em Portugal e na Croácia. Na Espanha o general Franco foi autorizado a chamar a sua invasão do país e a destruição da república eleita pelo título terrível de La Crujada, ou "A Cruzada". O Vaticano apoiou ou se recusou a criticar as tentativas operísticas de Mussolini de recriar um pastiche do Império Romano com suas invasões da Líbia, da Abissínia (hoje Etiópia) e da Albânia: territórios que eram habitados principalmente por não-cristãos ou pelo tipo errado de cristãos orientais. Mussolini chegou mesmo a dar como uma de suas justificativas para a utilização de gás venenoso e outros métodos horripilantes na Abissínia a insistência de seus habitantes na heresia do monofisismo, um dogma incorreto da Encarnação que tinha sido condenado pelo Papa Leão e pelo Concilio de Calcedônia de 451. Na Europa central e oriental o quadro não era melhor. O golpe militar de extrema direita na Hungria, liderado pelo almirante Horthy, foi calorosamente endossado pela Igreja, assim como movimentos fascistas semelhantes na Eslováquia e na Áustria. (O regime-fantoche nazista da Eslováquia na verdade era comandado por um homem de votos sacerdotais chamado padre Tiso.) O cardeal da Áustria proclamou seu entusiasmo com a tomada de seu país por Hitler quando do Anschluss. Na França, a extrema direita adotou o lema de "Meilleur Hitler que Blum" — em outras palavras, melhor ter um ditador racista alemão que um socialista francês judeu eleito. Organizações fascistas católicas como a Action Française, de Charles Maurras, e a Croix de Feu fizeram violentas campanhas contra a democracia francesa e não tentaram de modo algum esconder seu ressentimento pelo modo como a França estava decaindo desde o veredicto de inocência para o capitão judeu Alfred Dreyfus em 1899. Quando houve a conquista da França pela Alemanha, essas forças colaboraram ativamente com a prisão e o assassinato de judeus franceses, bem como com a deportação para trabalhos forçados de um enorme número de outros franceses. O regime de Vichy se curvou ao clericalismo eliminando o lema de 1789 — "Liberté, Egalité, Fraternité" — da moeda nacional e o substituindo pelo lema cristão ideal de "Famille, Travail, Patrie". Mesmo em um país como a Inglaterra, onde as simpatias fascistas eram menores, eles ainda conseguiram uma plateia em círculos respeitáveis com a atuação de intelectuais católicos como T. S. Eliot e Evelyn Waugh. Na vizinha Irlanda, o movimento Blue Shirt do general O'Duffy (que enviou "voluntários" para lutar por Franco na Espanha) era pouco mais que um ramo da Igreja Católica. Mesmo em abril de 1945, ao receber a notícia da morte de Hitler, o presidente Eamon de Valera colocou sua cartola, chamou a carruagem oficial e foi à embaixada alemã de Dublin apresentar suas condolências. Atitudes como essa significaram que vários Estados dominados por católicos, da Irlanda à Espanha e a Portugal, eram inelegíveis para ingresso nas Nações Unidas quando ela foi criada. A Igreja se esforçou para se desculpar por tudo isso, mas sua cumplicidade com o fascismo é uma marca indelével em sua história, e não foi um compromisso de curto prazo ou precipitado, mas uma aliança de trabalho que não foi rompida até depois de o próprio período fascista ter passado para a história. O caso da rendição da Igreja ao nacional-socialismo alemão é consideravelmente mais complicado, mas não muito mais elevado. Apesar de partilhar dois importantes princípios com o movimento de Hitler — o antissemitismo e o anticomunismo —, o Vaticano podia ver que o nazismo representava também um desafio a ele mesmo. Para começar, era um fenômeno quase pagão que a longo prazo buscava substituir o cristianismo por ritos de sangue e sinistros mitos raciais pseudo-nórdicos, baseados na fantasia da superioridade ariana. Em segundo lugar, defendia uma postura de extermínio para os doentes, os desajustados e os insanos, e rapidamente começou a aplicar essa política não a judeus, mas a alemães. Em benefício da Igreja deve ser dito que seus púlpitos alemães denunciaram essa hedionda seleção eugênica logo de início. Mas se os princípios éticos fossem a regra, o Vaticano não teria de passar os cinquenta anos seguintes tentando justificar ou se desculpar por sua desprezível passividade e inação. "Passividade" e "inação" na verdade podem ser uma escolha de palavras errada. Decidir não fazer nada é em si uma política e uma decisão, e é lamentavelmente fácil registrar e explicar o alinhamento da Igreja em termos de uma realpolitik que buscava não uma derrota do nazismo, mas um ajuste a ele. O primeiro acordo diplomático fechado pelo governo de Hitler foi consumado em 8 de julho de 1933, poucos meses após a tomada do poder, e teve a forma de um tratado como Vaticano. Em troca de controle inquestionável da educação de crianças católicas na Alemanha, o fim da propaganda nazista dos abusos infligidos em escolas e orfanatos católicos e a concessão de outros privilégios, a Santa Sé instruiu o Partido Centro Católico a se dissolver, e bruscamente determinou que os católicos se abstivessem de qualquer atividade política em qualquer tema que o regime resolvesse definir como fora limites. Na primeira reunião de gabinete depois dessa capitulação ter sido assinada, Hitler anunciou que as novas circunstâncias seriam "especialmente significativas na luta contra o judaísmo internacional". Ele não estava equivocado em relação a isso. De fato, ele podia ser desculpado por não acreditar em sua própria sorte. Os 22 milhões de católicos que viviam no Terceiro Reich, muitos dos quais tinham demonstrado grande coragem resistindo à ascensão do nazismo, tinham sido estripados e castrados como força política. Seu próprio Santo Padre tinha de fato dito a eles para entregar tudo ao pior César da história humana. A partir de então, os registros das paróquias foram colocados à disposição do Estado nazista de modo a estabelecer quem era e quem não era suficientemente "racialmente puro" para sobreviver à interminável perseguição sob as leis de Nuremberg. A consequência não menos chocante dessa rendição moral foi o paralelo colapso moral dos protestantes alemães, que buscaram conseguir um status especial para os católicos publicando seu próprio acordo com o Führer. Porém, nenhuma das igrejas protestantes foi tão longe quanto a hierarquia católica ordenando uma celebração anual no aniversário de Hitler, em 20 de abril. Nessa data auspiciosa, por instrução do papa, o cardeal de Berlim regularmente transmitia "calorosas congratulações ao Führer em nome dos bispos e das dioceses da Alemanha", sendo essas louvações acompanhadas das "orações fervorosas que os católicos da Alemanha estão enviando aos céus a partir de seus altares". A ordem era obedecida, e fielmente executada. Para ser justo, essa tradição abjeta só foi iniciada em 1939, ano em que houve uma mudança no papado. E, sendo justo mais uma vez, o Papa Pio XI sempre tinha acalentado as mais profundas apreensões quanto ao sistema de Hitler e a sua evidente capacidade de mal radical. (Durante a primeira visita de Hitler a Roma, por exemplo, o Santo Padre deixou a cidade de forma bem clara para o retiro papal de Castelgandolfo.) Contudo, esse papa fraco e doente foi constantemente manobrado, ao longo da década de 1930, por seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli. Temos bons motivos para acreditar que pelo menos uma encíclica papal, expressando pelo menos uma mínima preocupação com o tratamento dispensado aos judeus da Europa, foi preparada por Sua Santidade mas eliminada por Pacelli, que tinha em mente outra estratégia. Nós hoje conhecemos Pacelli como o Papa Pio XII, que ocupou o posto depois da morte de seu antigo superior em fevereiro de 1939. Quatro dias depois de sua eleição pelo Colégio de Cardeais, Sua Santidade produziu a seguinte carta para Berlim: Ao ilustre Herr Adolf Hitler, Führer chanceler do Reich Alemão! Aqui, no início de Nosso Pontificado, queremos assegurar que Nós permanecemos dedicados ao bem-estar espiritual do povo alemão confiado a sua liderança. (...) Durante os muitos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para estabelecer relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de nossa função pastoral aumentaram nossas oportunidades, de forma ainda mais ardente rezamos para atingir essa meta. Que a prosperidade do povo alemão e seu progresso em todas as áreas se realizem, com a ajuda de Deus, para a fruição! Seis anos depois dessa mensagem maldosa e vaidosa, o um dia próspero e civilizado povo da Alemanha podia olhar ao redor e dificilmente ver um tijolo sobre o outro, enquanto o Exército Vermelho sem deus marchava rumo a Berlim. Mas eu menciono essa conjuntura por outra razão. Espera-se que os crentes sustentem que o papa é o vigário de Cristo na Terra e o guardião das chaves de São Pedro. Eles claro, são livres para acreditar nisso, e para acreditar que Deus decide quando encerrar o mandato de um papa ou (mais importante ainda) iniciar o mandato de outro. Isso implicaria acreditar na morte de um papa antinazista e na ascensão de um papa pró-nazista como uma questão de desejo divino, poucos meses antes da invasão da Polônia por Hitler e o início da Segunda Guerra Mundial. Estudando aquela guerra, talvez seja possível aceitar que 25 por cento dos SS eram católicos praticantes e que nenhum católico foi sequer ameaçado de excomunhão por participação em crimes de guerra. (Joseph Goebbels foi excomungado, mas isso se deu antes e, afinal, ele tinha sido responsável por isso pelo crime de ter se casado com uma protestante.) Seres humanos e instituições são imperfeitos, certamente. Mas não poderia haver prova mais clara e vivida de que as instituições sagradas são feitas pelo homem. O conluio continuou mesmo depois da guerra, com criminosos nazistas procurados levados para a América do Sul pela "linha do rato". Foi o próprio Vaticano, com sua capacidade de providenciar passaportes, documentos, dinheiro e contatos, que organizou a rede de fuga e também a necessária proteção e ajuda no outro extremo. Por mais que isso fosse ruim em si, também envolvia cooperação com outras ditaduras de extrema direita do hemisfério sul, muitas delas organizadas segundo o modelo fascista. Torturadores e assassinos fugitivos como Klaus Barbie frequentemente se viam em uma segunda carreira como empregados desses regimes, que até começarem a desmoronar nas últimas décadas do século XX também desfrutaram de um firme apoio do clero católico local. A ligação da Igreja com o fascismo e o nazismo de fato resistiu ao próprio Terceiro Reich. Muitos cristãos deram suas vidas para proteger seus próximos naquela meia noite do século, mas a chance de que eles o tenham feito por ordem de qualquer sacerdote é estatisticamente quase nula. Por isso reverenciamos a memória daqueles muito poucos crentes, como Dietrich Bonhoeffer e Martin Niemoller, que agiram de acordo apenas como que determinavam suas consciências. O papado demorou até os anos 1980 para encontrar um candidato à santidade no contexto da "solução final", e mesmo então só conseguiu identificar um padre muito dúbio que - após um longo histórico de antissemitismo político na Polônia — aparentemente tinha se comportado de forma nobre em Auschwitz. Um candidato anterior — um simples austríaco chamado Franz Jagerstatter — infelizmente foi desclassificado. Ele de fato tinha se recusado a ingressar no exército de Hitler alegando obedecer a ordens superiores de amar o próximo, mas quando estava na prisão aguardando a execução foi visitado por seus confessores, que disseram que ele deveria obedecer à lei. A esquerda secular da Europa se saiu bem melhor da luta contra o nazismo, mesmo que muitos de seus membros acreditassem que havia um paraíso operário além dos montes Urais. Costuma ser esquecido que a tríade do Eixo incluía outro membro — o império do Japão —, que tinha como seu chefe de Estado não apenas uma pessoa religiosa, mas na verdade uma divindade. Se a chocante heresia de acreditar que o imperador Hirohito era deus foi algum dia denunciada em algum púlpito alemão ou italiano por qualquer prelado, eu fui incapaz de descobrir. No sagrado nome desse mamífero ridiculamente sobreavaliado enormes áreas da China, da Indochina e do Pacífico foram saqueadas e escravizadas. Também em seu nome milhões de japoneses doutrinados foram martirizados e sacrificados. O culto a esse deus-rei era tão obrigatório e histérico que se acreditava que todo o povo japonês poderia apelar ao suicídio caso sua pessoa fosse ameaçada ao final da guerra. Assim chegou-se a um acordo de que ele poderia "permanecer", mas que dali por diante teria de alegar ser apenas um imperador, e talvez de alguma forma divino, mas não estritamente falando um deus. Essa deferência à forca da opinião religiosa deve implicar o reconhecimento de que fé e adoração podem fazer as pessoas se comportarem realmente muito mal. Assim, aqueles que invocam a tirania "secular" em comparação com a religião esperam que esqueçamos duas coisas: a ligação entre as igrejas católicas e o fascismo e a capitulação das igrejas ao nacional-socialismo. Essa afirmação não é apenas minha: ela foi admitida pelas próprias autoridades religiosas. Sua consciência pesada nessa questão é ilustrada por um fragmento de má-fé que ainda precisa ser combatido. Em sites religiosos e na propaganda religiosa é possível se deparar com uma afirmação supostamente feita por Albert Einstein em 1940: Sendo um amante da liberdade, quando a revolução chegou à Alemanha eu esperei que as universidades a defendessem, sabendo que elas sempre tinham alardeado sua devoção à causa da verdade; mas não, as universidades foram imediatamente silenciadas. Então eu esperei pelos grandes editores dos jornais cujos editoriais inflamados nos dias passados tinham proclamado seu amor à liberdade; mas eles, como as universidades, foram silenciados em algumas semanas. (...) Apenas a Igreja permaneceu firmemente no caminho da campanha de Hitler para eliminar a verdade. Eu nunca antes tinha tido qualquer interesse especial pela Igreja, mas hoje sinto um grande afeto e admiração, porque apenas a Igreja teve a coragem e a persistência de defender a verdade intelectual e a liberdade moral. Assim, sou obrigado a confessar que o que eu antes desprezei hoje louvo sem reservas. Originalmente publicada na revista Time (sem qualquer fonte verificável), essa suposta declaração foi certa vez citada em uma transmissão nacional de rádio do famoso porta-voz católico americano e clérigo Fulton Sheen, e continua a circular. Como destacou o analista William Waterhouse, ela de modo algum soa como Albert Einstein. Sua retórica é floreada demais para começar. Ela não faz qualquer menção à perseguição aos judeus. E faz o Einstein sereno e cuidadoso parecer tolo, por legar ter um dia "desprezado" algo pelo que ele "nunca teve especial interesse". Há ainda outra dificuldade, por essa declaração nunca aparecer em nenhuma antologia das observações escritas ou ditas por Einstein. Finalmente, Waterhouse conseguiu descobrir uma carta não-publicada nos Arquivos Einstein de Jerusalém, na qual o velho homem se queixava em 1947 de ter um dia feito uma observação louvado alguns "religiosos" alemães (não "igrejas"), que tinha desde então sido exagerada a ponto de se tornar irreconhecível. Qualquer um que queira saber o que Einstein realmente disse nos primeiros dias da barbárie de Hitler pode descobrir facilmente. Por exemplo. Eu espero que condições saudáveis logo se imponham na Alemanha, e no futuro grandes homens como Kant e Goethe não sejam simplesmente festejados de tempos em tempos, mas que os princípios que eles ensinaram prevaleçam na vida pública e na consciência geral. Fica muito claro com isso que ele colocava sua "fé", como sempre, na tradição iluminista. Aqueles que buscam representar erroneamente o homem que nos deu uma teoria alternativa para o universo (bem como aqueles que permaneceram silenciosos, ou pior ainda, enquanto seus colegas judeus estavam sendo deportados e destruídos) traem os escrúpulos de suas consciências pesadas.
Quanto ao stalinismo soviético e chinês, com seu exorbitante culto à personalidade e sua indiferença pervertida para com a vida e os direitos humanos, não se pode esperar descobrir grandes coincidências com as religiões preexistentes. Para começar, a Igreja Ortodoxa Russa tinha sido a principal impulsionadora da autocracia czarista, enquanto o próprio czar era visto como o líder formal da fé e algo um pouco mais que meramente humano. Na China, as igrejas cristãs eram fundamentalmente identificadas com as "concessões" estrangeiras arrancadas por poderes imperiais, que estavam entre as principais causas da própria revolução. Isso não explica ou desculpa o assassinato de padres e freiras e a violação de igrejas — não mais do que se deveria desculpar o incêndio de igrejas e o assassinato do clero na Espanha durante a luta da república espanhola contra o fascismo católico —, mas a longa associação da religião com o poder secular corrupto significou que a maioria das nações precisa passar por pelo menos uma fase anticlerical, de Cromwell ao Risorgimento, passando por Henrique VIII e a Revolução Francesa, e nas condições de guerra e colapso que havia na Rússia e na China esses interlúdios foram particularmente brutais. (Devo acrescentar porém, que nenhum cristão sério deveria esperar a restauração da religião como era em nenhum dos dois países: a igreja na Rússia era defensora da servidão e autora de pogrons antijudaicos, e na China os missionários, os comerciantes e concessionários avarentos eram sócios no crime.) Lenin e Trotski certamente eram ateus convictos que acreditavam que as ilusões da religião podiam ser destruídas por atos políticos e que nesse meio-tempo as propriedades obscenamente ricas da igreja podiam ser confiscadas e nacionalizadas. Também havia nas fileiras bolcheviques, como entre os jacobinos de 1789, aqueles que viam a revolução como uma religião alternativa, ligada a mitos de redenção e messianismo. Para Josef Stalin, que tinha se preparado para ser padre em um seminário na Geórgia, toda a coisa não passava de uma questão de poder. "Quantas divisões tem o papa?" foi a famosa pergunta idiota que ele fez. (A verdadeira resposta a esse sarcasmo cansativo era: "Mais do que você pensa.") Depois, Stalin pedantemente repetiu a rotina papal de fazer a ciência se ajustar ao dogma, insistindo em que o xamã e charlatão Trofim Lysenko tinha revelado o segredo da genética e prometido safras extras de vegetais particularmente inspirados. (Milhões de inocentes morreram de dores internas supliciantes em consequência dessa "revelação".) Esse César a quem todas as coisas eram devidamente atribuídas se preocupou, à medida que seu regime foi se tornando mais nacionalista e estatista, em manter pelo menos uma igreja-marionete que podia ligar seu tradicional apelo ao dele. Isso foi verdade especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando a "Internacional" foi substituída como hino nacional russo pelo tipo de propaganda musical que tinha derrotado Bonaparte em 1812 (isso em uma época em que "voluntários" de vários Estados fascistas europeus estavam invadindo o território russo sob a sagrada bandeira de uma cruzada contra o comunismo "sem deus"). Em uma passagem muito negligenciada de A revolução dos bichos, George Orwell permite que Moses, o corvo, havia muito o defensor crocitante de um paraíso além do céu, retorne à fazenda para pregar para as criaturas mais crédulas após Napoleão ter derrotado Bola-de-Neve. Sua analogia com a manipulação da Igreja Ortodoxa Russa por Stalin foi, como sempre, muito precisa. (Os stalinistas poloneses do pós-guerra tinham recorrido à mesma tática, legalizando uma organização católica chamada Pax Christi e dando a ela assentos no Parlamento de Varsóvia, para encanto de comunistas católicos colegas de jornada como Graham Greene.) A propaganda antirreligiosa na União Soviética era do tipo materialista mais banal: um santuário a Lenin frequentemente tinha vitrais, enquanto no museu oficial do ateísmo havia o testemunho de um cosmonauta russo que não tinha visto nenhum deus no espaço sideral. Essa cretinice expressava no mínimo tanto desprezo pelos caipiras simplórios quanto por qualquer ícone realizador de maravilhas. Como colocou o grande laureado da Polônia, Czeslaw Milosz, em seu clássico antitotalitário The Captive Mind, lançado em 1953: Eu conheci muitos católicos — poloneses, franceses, espanhóis — que eram rígidos stalinistas no campo da política mas que mantinham certas reservas internas, acreditando que Deus faria correções assim que as sentenças sanguinárias dos todo-poderosos da História fossem cumpridas. Eles levaram esse raciocínio ainda mais longe. Argumentam que a História se desenvolve de acordo com leis imutáveis que existem pela vontade de Deus; uma delas é a luta de classes, o século XX marca a vitória do proletariado, que é liderado nessa luta pelo Partido Comunista; Stalin, o líder do Partido Comunista, cumpre a lei da História, ou, em outras palavras, age segundo a vontade de Deus, portanto é preciso obedecer a ele. A humanidade só pode ser renovada segundo o padrão russo; por isso nenhum cristão pode se opor à ideia — cruel, é verdade — que irá criar um novo tipo de homem sobre todo o planeta. Tal raciocínio é frequentemente utilizado por clérigos que são ferramentas do Partido. "Cristo é um novo homem. O novo homem é o homem soviético. Portanto, Cristo é um homem soviético!", disse Justinian Marina, o patriarca romeno. Homens como Marina sem dúvida eram odiosos e patéticos, simultaneamente odiosos e patéticos, mas isso em princípio não é pior do que os inúmeros pactos feitos entre Igreja e império, Igreja e monarquia, Igreja e fascismo e Igreja e Estado, todos eles justificados pela necessidade de o fiel fazer alianças temporais pelo bem de objetivos "superiores", enquanto se entrega a César (a palavra da qual deriva czar"), mesmo se ele for "sem deus". Um cientista político ou antropólogo teria pouca dificuldade em reconhecer o que os editores e colaboradores de O deus que falhou apresentaram naquela prosa imortal: absolutistas comunistas não tentavam tanto negar a religião, em sociedades que eles sabiam estar saturadas de fé e superstição, quanto substituí-la. A solene elevação de líderes infalíveis que eram fonte de infinita recompensa e bênção; a busca permanente de hereges e cismáticos; os horrendos julgamentos espetaculares que produzem confissões inacreditáveis por intermédio de tortura... nada disso era muito difícil de interpretar em termos tradicionais. Nem a histeria em tempo de peste e fome, quando as autoridades iniciavam uma busca ensandecida a qualquer culpado, menos o real. (A grande Doris Lessing certa vez me disse que deixou o Partido Comunista ao descobrir que os inquisidores de Stalin tinham pilhado os museus da ortodoxia russa e do czarismo e reutilizado os antigos instrumentos de tortura.) Também não o era a incessante invocação de um "Futuro Radiante", cuja chegada um dia iria justificar todos os crimes e dissolver todas as pequenas dúvidas. "Extra ecclesiam, nulla salus", como costumava dizer a antiga fé. "Na revolução, tudo" como Fidel Castro gostava de lembrar. "Fora da revolução, nada." De fato, na periferia de Castro se desenvolveu uma bizarra mutação conhecida, em um oximoro, como "teologia da libertação", cujos padres e até mesmo alguns bispos desenvolveram liturgias "alternativas" louvando a noção enganosa de que Jesus de Nazaré na verdade era um socialista militante. Por uma combinação de bons e maus motivos (o arcebispo Romero de El Salvador era um homem de coragem e princípios, de uma forma que alguns clérigos de "comunidades de base" nicaraguenses não eram), o papado acabou com isso como sendo heresia. Que bom teria sido se ele tivesse condenado o fascismo e o nazismo com o mesmo tom firme e claro. Em muito poucos casos, como o da Albânia, o comunismo tentou extirpar a religião inteiramente e proclamar um Estado por completo ateu. Isso apenas levou a cultos ainda mais extremados de seres humanos medíocres, como o ditador Enver Hoxha, e a batismos e cerimônias secretas que comprovaram a absoluta alienação das pessoas comuns do regime. Não há nada no moderno argumento secular que de longe sugira a proibição da observância religiosa. Sigmund Freud estava certo de descrever o impulso religioso, em O futuro de uma ilusão, como essencialmente inextinguível até, ou a não ser, que a espécie humana consiga vencer seu medo da morte ou sua tendência ao pensamento positivo. Nenhuma das duas situações parece provável. Tudo o que os totalitários demonstraram é que o impulso religioso — a necessidade de venerar — pode assumir formas ainda mais monstruosas se reprimido. Isso não necessariamente deve ser um cumprimento a nossa tendência à veneração. Nos primeiros meses deste século eu fiz uma visita à Coreia do Norte. Ali, contido em um quadrilátero hermético de território limitado pelo mar ou por fronteiras quase impenetráveis, há uma terra inteiramente devotada à bajulação. Todos os momentos despertos do cidadão — o súdito — são consagrados a louvar o Ser Supremo e seu Pai. Toda sala de aula ressoa com isso, todos os filmes, as óperas e as peças são dedicados a isso, todas as transmissões de rádio e televisão são voltadas para isso. Assim como todos os livros, as matérias de revistas e jornais, todos os eventos esportivos e todos os locais de trabalho. Eu costumava pensar em como seria ter de cantar louvores infinitos, e hoje eu sei. Nem o demônio é esquecido: o mal vigilante dos estrangeiros e descrentes é evitado com uma vigilância perpétua, que inclui momentos diários de ritual no trabalho nos quais é inculcado o ódio ao "outro". O Estado norte-coreano nasceu aproximadamente na mesma época em que 1984 estava sendo publicado, e quase se pode acreditar que o pai sagrado do Estado, Kim Il Sung, recebeu um exemplar do romance e foi questionado se poderia colocá-lo em prática. Mas mesmo Orwell não tentou dizer que o nascimento do "Grande Irmão" foi cercado de sinais e prodígios milagrosos — como pássaros louvando o acontecimento glorioso cantando com vozes humanas. Nem o Partido Interno de Pista Número 1/Oceania gastou bilhões de escassos dólares, em uma época de fome terrível, para provar que o mamífero enganoso Kim Il Sung e seu filho mamífero patético Kim Jong Il eram duas encarnações da mesma pessoa. (Nessa versão da heresia ariana tão condenada por Atanásio, a Coreia do Norte é única por ter um homem morto como chefe de Estado: Kim Jong Il é o chefe do partido e do exército, mas a presidência é exercida perpetuamente por seu pai morto, o que faz do país uma necrocracia ou uma mausoleocracia, além de um regime que está a apenas uma pessoa da Trindade.) A vida após a morte não é mencionada na Coreia, porque a ideia de deserção em qualquer direção é fortemente desencorajada, mas em compensação não é dito que os dois Kim continuarão a dominá-lo depois que você tiver morrido. Estudiosos do tema podem ver facilmente que o que temos na Coreia do Norte não é tanto uma forma extrema de comunismo — o termo mal é mencionado em meio às tempestades de dedicação extasiada — mas uma forma pervertida, embora refinada, de confucionismo e veneração aos ancestrais. Quando eu deixei a Coreia do Norte, com uma sensação mista de alívio, ultraje e pena tão grande que ainda continuo com ela, estava deixando um Estado totalitário, e também religioso. Desde então eu tenho conversado com muitas das valorosas pessoas que estão tentando minar esse sistema atroz interna e externamente. Admito desde já que alguns dos resistentes mais valorosos são cristãos fundamentalistas e anticomunistas. Um desses homens corajosos concedeu há pouco tempo uma entrevista na qual foi honesto o bastante para dizer que tinha dificuldade em pregar a ideia de um salvador para os poucos esfaimados e aterrorizados que tinham conseguido escapar de seu estado-prisão. A própria ideia de um redentor infalível e todo-poderoso, diziam, era conhecida demais deles. Uma tigela de arroz, alguma exposição a uma cultura mais ampla e algum alívio do fardo hediondo do entusiasmo compulsório eram o máximo que eles pediam por hora. Aqueles que têm sorte o bastante de chegar à Coreia do Sul ou aos Estados Unidos podem se ver confrontados por um outro Messias. O criminoso inveterado e sonegador de impostos Sun Myung Moon, líder inconteste da "Igreja de Unificação" e grande financiador da extrema direita nos Estados Unidos, é um dos patronos do golpe do "projeto inteligente". Um personagem importante nesse dito movimento e um homem que nunca deixa de dar a esse guru homem-deus seu adequado nome de "Pai" é Jonathan Wells, autor de uma risível diatribe antievolucionista intitulada The Icons of Evolution. Como o próprio Wells diz de forma tocante: "As palavras do Pai, meus estudos e minhas preces me convenceram de que eu deveria dedicar minha vida a destruir o darwinismo, assim como muitos de meus colegas unificacionistas já dedicaram suas vidas a destruir o marxismo. Quando o Pai me escolheu (juntamente com cerca de 12 outros formados no seminário) para participar de um programa de doutorado em 1978, eu agradeci a oportunidade de combater". É improvável que o livro do sr. Wells consiga sequer uma nota de pé de página na história das baboseiras, mas tendo visto o "paternalismo" em ação nas duas Coreias, eu tenho uma ideia de como deveria ser o "Distrito Consumido" do estado de Nova York quando os crentes faziam tudo do seu jeito. Mesmo resignadamente, a religião tem de admitir que o que está propondo é uma solução "total" na qual a fé deve ser de certa forma cega, e na qual todos os aspectos da vida privada e pública devem ser submetidos a uma constante supervisão. Essa vigilância constante e essa sujeição contínua, normalmente implementadas pelo medo na forma da vingança infinita, não despertam invariavelmente as melhores características dos mamíferos. Certamente é verdade que a emancipação da religião também nem sempre produz o melhor mamífero. Dois grandes exemplos: um dos maiores e mais iluminados cientistas do século XX, D. Bernal, foi abjeto partidário de Stalin e passou grande parte da vida defendendo os crimes de seu líder. H. L. Mencken, um dos melhores satiristas da religião, era muito entusiasmado com Nietzsche e advogava uma forma de "darwinismo social" que incluía a eugenia e o desprezo pelos fracos e doentes. Ele também teve uma quedinha por Adolf Hitler e escreveu uma resenha imperdoavelmente indulgente de Minha luta. O humanismo tem muitos crimes pelos quais se desculpar. Mas ele pode se desculpar por eles, e também corrigi-los, em seus próprios termos e sem ter de abalar ou questionar as bases de qualquer sistema de crenças inalterável. Sistemas totalitários, quaisquer que sejam suas formas externas, são fundamentalistas e como dissemos agora, "baseados na fé". Em seu estudo magistral do fenômeno totalitário, Hannah Arendt não estava sendo simplesmente tribal quando atribuiu um lugar especial ao antissemitismo. A ideia de que um grupo de pessoas — seja ele definido como uma nação ou uma religião — possa ser condenado para todos os tempos, e sem possibilidade de recurso, era (e é) essencialmente totalitária. É terrivelmente fascinante que Hitler tenha começado como propagador desse preconceito enlouquecido, e que Stalin tenha acabado sendo ao mesmo tempo vítima e defensor dele. Mas o vírus foi durante séculos mantido vivo pela religião. Santo Agostinho definitivamente utilizou o mito do Judeu Errante e o exílio dos judeus em geral como prova da justiça divina. Os judeus ortodoxos não são isentos de culpa. Alegando terem sido "escolhidos" em um acordo especial e exclusivo com o Todo-Poderoso, eles provocaram o ódio e a suspeita, e produziram sua própria forma de racismo. Contudo, são acima de tudo os judeus seculares que foram e são odiados pelos totalitários, portanto não há sentido em qualquer "culpe a vítima". A Ordem Jesuíta, até o século XX, se recusava, por estatuto, a admitir um homem a não ser que ele pudesse provar que não tinha "sangue judeu" por várias gerações. O Vaticano pregou que todos os judeus herdavam a responsabilidade pelo teicídio. A igreja francesa insuflou a multidão contra Dreyfus e "os intelectuais". O islamismo nunca perdoou "os judeus" por encontrarem Maomé e decidirem que ele não era o verdadeiro mensageiro. Por enfatizar tribo, dinastia e origem racial em seus livros sagrados, a religião precisa aceitar a responsabilidade de transmitir uma das ilusões mais primitivas da humanidade através das gerações. A ligação entre religião, racismo e totalitarismo também pode ser encontrada na outra odiosa ditadura do século XX: o sistema vil do apartheid da África do Sul. Aquela não era apenas a ideologia de uma tribo de língua holandesa disposta a extorquir trabalho forçado de povos de um diferente padrão de pigmentação; era também uma forma de calvinismo na prática. A Igreja Reformada Holandesa pregava como dogma que negros e brancos eram biblicamente proibidos de se misturar, quanto mais de coexistir em termos de igualdade. Racismo é totalitário por definição: ele marca a vítima perpetuamente e nega a ela até mesmo o direito de um farrapo de dignidade ou privacidade, até mesmo o direito elementar de fazer amor, casar ou produzir filhos com um ente querido da tribo "errada" sem ter seu amor anulado pela lei... E essa era a vida de milhões que viviam no "Ocidente cristão" em nossos próprios dias. O Partido Nacional, do governo, que também estava altamente contaminado por antissemitismo e que tinha ficado do lado dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, se baseava nos delírios do púlpito para justificar seu próprio mito de sangue de um "Êxodo" bôer que deu a eles direitos exclusivos em uma "terra prometida". Consequentemente, uma transmutação africânder do sionismo produziu um Estado atrasado e despótico no qual os direitos de todos os outros povos foram abolidos e no qual a sobrevivência dos próprios africânderes acabou ameaçada pela corrupção, pelo caos e pela brutalidade. Nesse momento os anciãos bovinos da Igreja tiveram uma revelação que permitiu o fim gradual do apartheid. Mas isso de modo algum pode admitir perdão pelo mal que a religião causou enquanto se sentia forte o bastante para fazê-lo. São os muitos cristãos e judeus seculares, e os muitos militantes ateus e agnósticos do Congresso Nacional Africano, que merecem o crédito pela sociedade sul-africana ter sido salva da barbárie total e da implosão. O último século viu muitos outros improvisos sobre a velha ideia de uma ditadura que podia cuidar de problemas mais que apenas seculares ou cotidianos. Eles variaram de levemente ofensivo — a Igreja Ortodoxa Grega batizou a junta militar golpista de 1967, com suas viseiras e seus capacetes de aço, de "a Grécia para os cristãos gregos" — "até o escravizador "angka" do Khmer Vermelho no Camboja, que buscou sua autoridade em templos e lendas pré-históricos. (Seu algumas vezes amigo, algumas vezes rival, o já mencionado rei Sihanouk, que conseguiu um abrigo de playboy sob a proteção dos stalinistas chineses, também era adepto de ser um deus-rei quando interessava a ele.) Entre um extremo e outro está o xá do Irã, que alegava ser "a sombra de Deus", bem como "a luz dos arianos", que reprimiu a oposição secular e tomou o cuidado de ser representado como guardião dos santuários xiitas. Sua megalomania foi sucedida por uma de suas primas próximas, a heresia de Khomeini da velayet-i-faqui, ou o completo controle social pelos mulás (que também exibem seu falecido líder como seu fundador e afirmam que suas palavras sagradas nunca podem ser apagadas). No extremo pode ser encontrado o purismo medieval do Talibã, que se dedicou a descobrir novas coisas a proibir (tudo, de música a papel reciclado, que podia conter um pequeno fragmento de polpa de um Corão jogado fora) e novos métodos de punição (homossexuais queimados vivos). A alternativa a esses fenômenos grotescos não é a quimera da ditadura secular, e sim a defesa do pluralismo secular e o direito a não acreditar ou ser obrigado a acreditar. Essa defesa agora se tornou uma responsabilidade urgente e inevitável: uma questão de sobrevivência.
Em certo sentido, o mais atraente e encantador dos fundadores da antirregião é o poeta Lucrécio, que viveu no século I a.C. e admirava enormemente o trabalho de Epicuro. Reagindo a um renascimento da antiga veneração ao imperador Augusto, ele compôs um poema espirituoso e brilhante intitulado De Rerum Natura ou Sobre a natureza das coisas. Essa obra quase foi destruída por cristãos fanáticos na Idade Média, e apenas um exemplar impresso sobreviveu, de modo que temos sorte de saber que uma pessoa que escreveu na época de Cícero (o primeiro a publicar o poema) e Júlio César tinha conseguido manter viva a teoria atômica. Lucrécio antecipou David Hume ao dizer que a perspectiva de aniquilação futura não era pior do que a contemplação do nada do qual se vem, e também antecipou Freud ao ridicularizar a ideia de ritos fúnebres preestabelecidos e memoriais, tudo isso expressando o desejo vão e inútil de estar de uma forma presente no próprio enterro. Seguindo Aristófanes, ele achava que o clima tinha sua própria explicação, e que essa natureza, livre de todos os deuses, fazia o trabalho que pessoas tolas e autocentradas acreditavam ter inspiração divina, ou destinada a seus seres insignificantes: Quem pode girar todas as esferas estreladas e soprar Sobre toda a terra o calor frutífero de cima, Estar a postos em todos os lugares e todo o tempo, Reunir nuvens negras e sacudir o céu plácido Com terrível trovão, arremessar raios que muitas vezes Destroem seus próprios santuários, se enfurecer no deserto, recuando Para exercitar a pontaria, de modo que seus dardos possam Errar o culpado e matar o inocente? O atomismo foi violentamente perseguido por toda a Europa cristã durante muitos séculos, com base no argumento irracional de que oferecia uma explicação melhor para o mundo natural do que religião. Mas, como uma tênue corrente de pensamento, a obra de Lucrécio conseguiu persistir em algumas mentes educadas. Sir Isaac Newton pode ter sido um crente — em todos os tipos de pseudociência, bem como no cristianismo —, mas quando estabeleceu seus Princípios ele incluiu nos primeiros esboços da obra noventa linhas de Sobre a natureza das coisas. Saggiatore, de Galileu, de 1623, embora não reconheça Epicuro, dependia a tal ponto de suas teorias atômicas que tanto seus amigos quanto seus críticos se referem a ele como um livro epicurista. Visto o terror imposto pela religião à ciência e ao conhecimento ao longo dos primeiros séculos cristãos (Agostinho sustentou que os deuses pagãos existiam, mas apenas como demônios, e que a Terra tinha menos de seis mil anos de idade), e o fato de que a maioria das pessoas inteligentes considerava prudente dar uma demonstração exterior de adequação, não surpreende que o renascimento da filosofia frequentemente tenha sido expresso em termos quase religiosos. Aqueles que seguiam as várias escolas de filosofia que eram permitidas na Andaluzia durante seu breve florescimento — uma síntese de aristotelismo, judaísmo, cristianismo e islamismo — podiam especular sobre a dualidade da verdade e um possível equilíbrio entre razão e revelação. O conceito de "dupla verdade" foi proposto por defensores de Averróes, mas fortemente rejeitado pela Igreja por razões óbvias. Francis Bacon, escrevendo durante o reinado da rainha Elizabeth, gostava de dizer — talvez seguindo a afirmação de Tertuliano de que quanto maior o absurdo mais forte sua crença nele — que a fé está no auge quando seus ensinamentos são menos receptivos à razão. Pierre Bayle, escrevendo algumas décadas depois, gostava de afirmar todas as alegações da razão contra uma determinada crença, apenas para acrescentar "muito maior é a vitória da fé por ainda assim acreditar". Podemos estar bastante certos de que ele não fazia isso apenas para evitar punições. A época em que a ironia iria punir e confundir os literais e os fanáticos estava prestes a nascer.
Vaticano e as autoridades calvinistas na Holanda aprovaram de coração a histérica condenação judaica e se uniram à eliminação de toda a obra de Spinoza pela Europa inteira. O homem não tinha questionado a imortalidade da alma e pedido a separação entre Igreja e Estado? Fora com ele! Esse herege desprezado é hoje considerado o autor da obra filosófica mais original já produzida sobre distinção entre corpo e mente, e suas meditações sobre a condição humana de mais consolo às pessoas conscientes do que qualquer religião. Continua a discussão sobre se Spinoza era ateu: hoje parece estranho que tenhamos de discutir se panteísmo é ateísmo ou não. Em seus próprios termos, de fato é teísta, mas a definição de Spinoza de um deus manifesto por todo o mundo natural chega muito perto de definir um deus religioso fora da existência. E se houver uma divindade cósmica difusa preexistente que seja parte do que ela cria, então não sobra espaço para um deus que interfere nos assuntos humanos, quanto mais para um deus que escolhe um lado em rancorosas guerras hamletianas entre diferentes tribos de judeus e árabes. Nenhum texto pode ter sido escrito ou inspirado por ele, para começar, e não pode ser propriedade especial de uma seita ou tribo. (Lembra a pergunta feita pelos chineses quando os primeiros missionários cristãos apareceram. Se Deus se revelou, por que ele deixou tantos séculos se passarem antes de informar os chineses?) "Busque conhecimento mesmo que na China", disse o Profeta Maomé, inconscientemente revelando que a maior civilização do mundo estava no limite externo de sua consciência. Como no caso de Newton e Galileu criando a partir de Demócrito e Epicuro, vemos Spinoza se projetar na mente de Einstein, que respondeu à pergunta de um rabino afirmando solenemente que acreditava apenas no "deus de Spinoza" e nada em um deus "que se preocupa com os destinos e atos de seres humanos". Spinoza desjudaizou seu nome para Benedict, sobreviveu ao anátema de Amsterdã por vinte anos e morreu com extremo estoicismo, em consequência do pó de vidro que penetrou em seus pulmões, sempre insistindo em conversas calmas e racionais. Sua carreira foi dedicada a raspar e polir lentes para telescópios e para a medicina: uma atividade adequadamente científica para alguém que ensinou os humanos a ver com maior acuidade. Como escreveu Heinrich Heine, "todos os nossos filósofos modernos, embora talvez frequentemente de modo inconsciente, olham através das lentes que Baruch Spinoza instalou". Os poemas de Heine seriam tarde atirados em uma pira por arruaceiros nazistas desarticulados que não acreditavam que mesmo um judeu assimilado podia ser um verdadeiro alemão. Os judeus assustados e retrógrados que lançaram Spinoza no ostracismo tinham jogado fora uma pérola mais rica que toda a sua tribo: o corpo de seu filho mais valoroso foi roubado após sua morte e sem dúvida submetido a outros rituais de violação. Spinoza tinha visto isso se avizinhar. Em sua correspondência ele escrevia a palavra Caute! (do latim "tome cuidado") e colocava uma pequena rosa abaixo. Não era o único aspecto de sua obra que era sub rosa: ele deu um nome falso para o impressor de seu festejado Tractatus e deixou a página do autor em branco. Sua obra proibida (boa parte da qual poderia não ter sobrevivido à sua morte, não fosse pela bravura e a iniciativa de um amigo) continuou a ter uma existência clandestina nos escritos de outros. No Dicionário histórico e crítico de Pierre Bayle de 1697 ele tinha o maior verbete. O espírito das leis de Montesquieu, de 1748, foi considerado tão baseado nos textos de Spinoza que seu autor foi compelido pelas autoridades eclesiásticas da França a renegar esse monstro judeu e a fazer uma declaração pública anunciando sua crença em um criador (cristão). A grande Enciclopédia francesa que definiu o Iluminismo, editada por Denis Diderot e d'Alembert, tem um verbete enorme sobre Spinoza.Diálogos sobre a religião natural - David Hume
Mesmo o grande Thomas Paine, amigo de Franklin e Jefferson, repudiou a acusação de ateísmo que ele não temia provocar. De fato, ele se dispôs a denunciar os crimes e os horrores do Velho Testamento, bem como os mitos tolos do Novo, como parte de uma justificativa de Deus. Nenhuma grande e nobre divindade, afirmou ele, deveria ter tais atrocidades e idiotices atribuídas a si. A era da razão de Paine praticamente marca a primeira vez em que o desprezo sincero à religião organizada foi expresso abertamente. Isso teve um enorme efeito em todo o mundo. Enquanto isso, seus amigos e contemporâneos americanos, em parte inspirados por ele a declarar independência dos usurpadores de Hannover e de sua Igreja Anglicana privada, conseguiram algo extraordinário e sem precedentes: escrever uma Constituição democrática e republicana que não fazia nenhuma menção a Deus e que só citava a religião para garantir que ela estaria para sempre separada do Estado. Quase todos os fundadores do país morreram sem um padre ao lado da cama, assim como Paine, que foi muito atormentado em suas últimas horas por arruaceiros religiosos que exigiam que ele aceitasse Cristo como seu salvador. Como David Hume, ele declinou de tal consolo e sua memória sobreviveu ao boato calunioso de que no final ele tinha implorado pela reconciliação com a Igreja. (O simples fato de que tais "arrependimentos" no leito de morte fossem desejados pelos crentes, quanto mais posteriormente forjados, diz muito sobre a má-fé dos que se baseiam na fé.) Charles Darwin nasceu enquanto Paine e Jefferson eram vivos, e seu trabalho acabou transcendendo os limites da ignorância em relação às origens das plantas e dos animais e dos outros fenômenos, sob os quais eles tiveram de trabalhar. Mas mesmo Darwin, ao iniciar sua aventura como botânico e naturalista, estava quase certo de que agia de forma coerente com o projeto de Deus. Ele queria ser um clérigo. E quanto mais descobertas ele fazia, mais tentava "enquadrá-las" na fé em uma inteligência superior. Como Edward Gibbon, ele previu uma polêmica quando da publicação e (um pouco menos que Gibbon) fez algumas notas protetoras e defensivas. De fato, ele primeiramente argumentou consigo mesmo em grande parte como alguns dos imbecis do "projeto inteligente" de hoje costumam fazer. Confrontado com os incontestáveis fatos da evolução, por que não alegar que eles provam como Deus é muito maior até mesmo do que pensamos que era? A descoberta de leis naturais "deve exaltar nossa noção do poder do Criador onisciente". Não totalmente convencido disso em sua própria mente, ele temia que seus primeiros escritos sobre a seleção natural fossem o fim de sua reputação, o equivalente a "confessar um assassinato". Ele também avaliou que, se um dia encontrasse adaptação ao ambiente, teria de confessar algo ainda mais alarmante: a ausência de uma causa inicial ou de um projeto grandioso. Os sintomas de dissimulação codificada nas entrelinhas ao velho estilo podem ser encontrados ao longo de toda a primeira edição de A origem das espécies. O termo "evolução" nunca aparece, enquanto a palavra "criação" é frequentemente empregada. (De modo fascinante, suas primeiras anotações de 1837 receberam o título provisório de A transmutação das espécies, quase como se ele estivesse empregando a linguagem arcaica da alquimia.) A folha de rosto do Origem definitivo trazia um comentário, significativamente retirado do aparentemente respeitável Francis Bacon, sobre a necessidade de estudar não apenas a palavra de Deus, mas também sua "obra". Em A origem do homem e a seleção natural Darwin se sentiu capaz de levar as questões um pouco mais à frente, mas ainda submetido a revisões editoriais de sua devota e amada esposa, Emma. Apenas em sua autobiografia, que não deveria ser publicada, e em algumas cartas a amigos ele admitiu que não havia restado qualquer crença. Sua conclusão "agnóstica" era determinada tanto por sua vida quanto por sua obra: ele tinha sofrido muitas perdas e não conseguia conciliar isso com o criador amoroso, quanto mais com os ensinamentos cristãos sobre a punição eterna. Como muitas pessoas, ele, embora brilhante, era dado àquele solipsismo que produz ou destrói a fé e que supõe que o universo está preocupado como destino de alguém. Isso, porém, torna seu rigor científico ainda mais louvável e passível de ser colocado junto ao de Galileu, já que ele não foi fruto de nenhuma intenção que não a de descobrir a verdade. Não faz diferença que essa intenção incluísse a expectativa falsa e frustrada de que essa mesma verdade pudesse finalmente ressoar ad majorem dei gloriam. Após sua morte, Darwin também foi postumamente insultado pelas invenções de um cristão histérico que alegou que o grande, honesto e atormentado pesquisador estava no final folheando a Bíblia. Demorou um pouco para denunciar o patético impostor que achou que essa seria uma coisa nobre a fazer. Quando acusado de plágio científico, do que ele muito provavelmente era culpado, sir Isaac Newton fez a confissão precavida — que era, em si, plagiada — de que em sua obra, ele tivera a vantagem de "estar de pé nos ombros de gigantes". Pareceria apenas minimamente indulgente, na primeira década do século XXI, conceder o mesmo. Se e quando eu desejar, posso usar um simples laptop para me familiarizar com as vidas e as obras de Anaxágoras e Erasmo, Epicuro e Wittgenstein. Não preciso ler atentamente na biblioteca à luz de velas, enfrentar a falta de textos ou a dificuldade de contato com pessoas semelhantes de outras épocas ou sociedades. E nada (a não ser quando o telefone algumas vezes toca e eu ouço vozes roucas me condenando à morte, ao inferno ou a ambos) do medo constante de que algo que eu escreva leve à extinção de minha obra, ao exílio ou a algo pior para minha família, à difamação eterna de meu nome por religiosos farsantes e mentirosos e à dolorosa escolha entre retratação e morte por tortura. Eu desfruto de liberdade e de um acesso ao conhecimento que teria sido inimaginável para aqueles pioneiros. Pela perspectiva do tempo, portanto, não posso deixar de notar que os gigantes dos quais eu dependo, e em cujos ombros impressionantes eu me empoleiro, foram todos obrigados a ser um pouco fracos nas articulações fundamentais e altamente (e muito mal) evoluídas de seus joelhos. Apenas um membro da categoria de gigantes e gênios sempre falou o que quis sem qualquer medo aparente ou excesso de cautela. Portanto, eu cito Albert Einstein, muito mal representado, mais uma vez. Ele se dirige a um correspondente que está perturbado com mais uma daquelas muitas representações equivocadas: Foi, claro, uma mentira quando você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal, e nunca neguei isso; ao contrário, o disse claramente. Assim, se há algo em mim que possa ser chamado de religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do mundo na medida em que nossa ciência possa revelá-la. Anos mais tarde ele respondeu outra pergunta afirmando: Eu não acredito na imortalidade do indivíduo, e considero que a ética é uma preocupação exclusivamente humana sem qualquer autoridade sobre-humana por trás dela. Essas palavras vêm de uma mente, ou um homem, que era devidamente famosa por sua preocupação, sua prudência e seus escrúpulos, e cujo simples gênio produziu uma teoria que, nas mãos erradas, poderia ter obliterado não apenas este mundo, mas todo o seu passado e a própria possibilidade um futuro. Ele dedicou a maior parte de sua vida a uma grandiosa rejeição do papel de profeta punitivo, preferindo espalhar a mensagem do iluminismo e do humanismo. Decididamente judeu, consequentemente exilado, difamado e processado, ele preservou o que podia de seu judaísmo ético e rejeitou a mitologia bárbara do Pentateuco. Temos mais motivos para sermos gratos a ele que a todos os rabinos que já se lamuriaram e que ainda irão se lamuriar. (Tendo recebido a oferta de ser o primeiro presidente de Israel, Einstein recusou por causa de seus muitos receios sobre o caminho que o sionismo estava tomando. Isso foi um grande alívio para David Ben-Gurion, que tinha perguntado, nervoso, ao seu gabinete: "O que faremos se ele disser 'sim'?") Esmagada na dor de seus trajes de luto, a maior vitoriana de todas teria apelado a seu primeiro-ministro predileto perguntando se ele podia oferecer um argumento incontestável para a existência de Deus. Benjamin Disraeli hesitou brevemente diante de sua rainha — a mulher que ele tinha tornado "imperatriz da Índia" — e respondeu: "Os Judeus, senhora." Parecia para aquele mundano mas supersticioso gênio político que a sobrevivência do povo judeu e sua fidelidade admiravelmente teimosa a seus antigos rituais e narrativas mostravam a mão invisível em ação. Na verdade, ele estava trocando de barco na maré vazante. No momento em que ele falava, o povo judeu estava emergindo de dois diferentes tipos de opressão. A primeira e mais óbvia era o confinamento em guetos que fora imposto a eles pelas ignorantes e intolerantes autoridades cristãs. Isso foi bem documentado demais para precisar de qualquer elaboração minha. Mas a segunda opressão era autoimposta. Napoleão Bonaparte, por exemplo, tinha, com algumas reservas, abolido as leis discriminatórias contra os judeus. (Ele poderia muito bem estar contando com seu apoio financeiro, mas não importa.) Mas quando seus exércitos invadiram a Rússia, os rabinos conclamaram seu rebanho a ficar do lado do mesmo czar que os difamava, açoitava, espoliava e assassinava. Melhor aquele despotismo agressivo aos judeus, disseram, que uma única pitada do Iluminismo francês impuro. Por isso o tolo e tedioso melodrama na sinagoga de Amsterdã foi e continua a ser tão importante. Mesmo em um país tão aberto quanto a Holanda, os anciãos tinham preferido se alinhar com antissemitas cristãos e outros obscurantistas a permitir que o melhor de seus membros se valesse de sua própria inteligência livre. Quando os muros dos guetos caíram, portanto, seu colapso libertou os habitantes dos clérigos, bem como "dos gentios". E seguiu-se um florescimento de talento como nunca tinha sido visto em outra época. Uma população antes ridicularizada começou a dar enormes contribuições à medicina, à ciência, ao direito, à política e às artes. Isso continua a reverberar: basta pensar em Marx, Freud e Einstein, embora Isaac Babel, Arthur Koestler, Billy Wilder, Lenny Bruce, Saul Bellow, Philip Roth Joseph Heller e muitos outros também sejam produto dessa dupla emancipação. Se for possível escolher um dia absolutamente trágico na história humana, seria a ocasião que hoje é comemorada no insípido e enfadonho feriado conhecido como "Hanuca". Pela primeira vez, em lugar de o cristianismo plagiar o judaísmo, os judeus desavergonhadamente copiaram os cristãos na esperança patética de uma celebração que coincidisse com o "Natal", que é em si uma anexação quase cristã, com lareiras acesas, azevinho e visgo, e um solstício pagão do norte originalmente iluminado pela aurora boreal. Eis o ponto a que o "multiculturalismo" banal nos trouxe. Mas não foi nada remotamente multicultural que levou Judas Macabeu a reconsagrar o Templo de Jerusalém em 165 a.C. e a estabelecer a data que os despreocupados festeiros do Hanuca hoje comemoram de forma tão vazia. Os macabeus, que fundaram a dinastia asmoniana, estavam restaurando pela força o fundamentalismo mosaico contra os muitos judeus da Palestina e de todas as outras regiões que tinham sido atraídos pelo helenismo. Esse verdadeiro multiculturalismo precoce tinha se cansado da "Lei", ofendido com a circuncisão, interessado por literatura grega, atraído pelos exercícios físicos e intelectuais do ginásio, e tornado adepto da filosofia. Eles podiam sentir a atração exercida por Atenas, mesmo que apenas por intermédio de Roma e pela lembrança da época de Alexandre, e estavam impacientes com medo absoluto e a superstição determinados pelo Pentateuco. Eles obviamente pareciam cosmopolitas demais para os sacerdotes do velho Templo — e deve ter sido fácil acusá-los de "dupla lealdade" quando eles concordaram em ter um templo de Zeus no local onde altares esfumaçados e ensanguentados costumavam receber propiciações à carrancuda divindade do passado. Seja como for, quando o pai de Judas Macabeu viu um judeu prestes a fazer uma oferenda helenista no antigo altar, não perdeu tempo em assassiná-lo. Ao longo dos anos seguintes da "revolta" macabéia, muitos outros judeus assimilados foram mortos, circuncidados à força ou ambas as coisas, e as mulheres que tinham flertado com a nova ordem helênica sofreram ainda mais. Como os romanos acabaram preferindo os violentos e dogmáticos macabeus aos judeus menos militarizados e fanáticos que tinham tomado sol em suas togas à luz do Mediterrâneo, o cenário estava pronto para o choque desconfortável entre o antiquado Sinédrio ultraortodoxo e o governo imperial. Esse dualismo lúgubre acabou levando ao cristianismo (outra heresia judaica) e assim, inevitavelmente, ao nascimento do islamismo. Poderíamos ter sido poupados de tudo isso. Sem dúvida, ainda teria havido muita tolice e solipsismo. A natureza de nossa espécie não é tão maleável. Mas a ligação entre Atenas, história e humanidade não teria sido rompida de tal forma, e o povo judeu poderia ser detentor de uma filosofia em vez de um monoteísmo árido, e as antigas escolas e sua sabedoria não teriam se tornado pré-históricas para nós. Eu certa vez me sentei no escritório do Knesset do falecido rabino Meir Kahane, um racista doentio e demagogo que tinha como partidário o louco dr. Baruch Goldstein e outros violentos colonos israelenses. A campanha de Kahane contra casamentos exógamos e pela expulsão de todos os não-judeus da Palestina tinha dado a ele o desprezo de muitos israelenses e judeus da diáspora, que comparavam seu programa ao das leis de Nuremberg, na Alemanha. Kahane delirou um pouco em resposta a isso, dizendo que qualquer árabe poderia permanecer caso se convertesse ao judaísmo por um rígido teste halacha,(2) mas então se cansou e desclassificou seus oponentes judeus como mera ralé "helenizada". E no sentido formal ele estava certo: sua intolerância tinha pouco a ver com "raça", e tudo a ver com "fé". Torcendo o nariz para aquele bárbaro insano, eu senti uma verdadeira angústia pelo mundo de luz e cor que tínhamos perdido havia muito tempo nos pesadelos em preto-e-branco de seus ancestrais horríveis e rígidos. O fedor de Calvino, Torquemada e Bin Laden exalava daquela figura suada e curvada cujos arruaceiros do Partido Kach patrulhavam as ruas procurando violações do sabá e contatos sexuais não-autorizados. Mais uma vez me valendo da metáfora do folhelho Burgess, ali estava um ramo venenoso que deveria ter sido arrancado muito tempo antes ou deixado para morrer antes que pudesse infectar qualquer broto saudável com sua sombra assassina. E criancinhas judias festejam o Hanuca para não se sentirem deixadas de fora dos mitos baratos de Belém, que agora estão sendo tão duramente contestados pela propaganda mais estridente de Meca e Medina.
19. Para concluir: a necessidade de um novo Iluminismo O verdadeiro valor de um homem não é determinado por sua posse, suposta ou real, da Verdade, mas por seu sincero esforço para chegar à Verdade. Não é aposse da Verdade, mas a busca da Verdade que o leva a estender seus poderes e nela encontrar seu aperfeiçoamento constante. A posse torna a pessoa passiva, indolente e orgulhosa. Se Deus tivesse toda a Verdade guardada em sua mão direita, e em sua mão esquerda apenas o caminho seguro e diligente para a Verdade e me oferecesse a escolha, embora com a ressalva de que eu sempre e para sempre iria errar no processo, eu com toda a humildade escolheria a mão esquerda. Gotthold Lessing, Anti-Goeze(1778) "O Messias não vem — e não vai sequer telefonar!" Sucesso no hit parade israelense (2001) O grande Lessing foi muito suave durante sua polêmica com o pregador fundamentalista Goeze. E sua modéstia faz parecer que ele tinha, ou poderia ter, escolha na questão. Na verdade, não temos a opção de "escolher" a verdade, ou fé, absoluta. Só temos o direito de dizer, daqueles que realmente alegam conhecer a verdade da revelação, que estão enganando a si mesmos e tentando enganar — ou intimidar — os outros. Claro que é melhor e mais saudável para a mente "escolher" o caminho do ceticismo e da investigação em qualquer caso, porque apenas pelo exercício contínuo dessas faculdades podemos esperar conquistar algo. Mas as religiões, espirituosamente definidas por Simon Blackburn em seu estudo da República de Platão, não passam de "filosofias fossilizadas" ou filosofia com questões deixadas de fora. "Escolher" o dogma e a fé em lugar da dúvida e da experimentação é jogar fora o vintage amadurecido e sair sequioso em busca de um refresco em pó.
Acima de tudo, estamos necessitados de um Iluminismo renovado, que se baseie na proposição de que o devido objeto de estudo da humanidade é o homem — e a mulher. Esse Iluminismo não precisará depender, como seus antecessores, das descobertas heroicas de algumas poucas pessoas bem-dotadas e excepcionalmente corajosas. Ele está ao alcance da pessoa comum. O estudo de literatura e poesia, pelo seu valor intrínseco e pelas eternas questões éticas com as quais ambas lidam, hoje pode facilmente destronar o escrutínio de textos sagrados, que se revelaram corrompidos e falsificados. A busca de investigações científicas ilimitadas e a disponibilidade de novas descobertas para multidões de pessoas por meios eletrônicos simples irão revolucionar nossos conceitos de pesquisa e desenvolvimento. O que é muito importante, o divórcio entre a vida sexual e o medo, entre vida sexual e doença, entre vida sexual e tirania, pode ser pelo menos tentado, com a única condição de que eliminemos todas as religiões do discurso. E tudo isso, e mais, está, pela primeira vez em nossa história, ao alcance ou nas mãos de todos. Porém, só o utópico mais ingênuo pode acreditar que essa nova civilização humana irá se desenvolver, como algum sonho de "progresso", em linha reta. Precisamos inicialmente transcender nossa pré-história e escapar das mãos enodoadas que tentam nos alcançar e nos arrastar de volta para as catacumbas, os altares ensanguentados e os prazeres culpados da sujeição e da abjeção. "Conhece a si mesmo", disseram os gregos, gentilmente sugerindo os consolos da filosofia. Para limpar a cabeça para esse projeto, tornou-se necessário conhecer o inimigo, e se preparar para combatê-lo.