deus não e Grande – Christopher Hitchens

Estamos resignados a viver apenas uma vez, a não ser por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar. Nós especulamos que seria pelo menos possível que, assim que as pessoas aceitassem o fato de que suas vidas são curtas e duras, se comportassem melhor com os outros, e não pior. Acreditamos com grande dose de certeza que é possível levar uma vida ética sem religião.

Não temos a necessidade de nos reunir todos os dias, ou a cada sete dias, ou em qualquer dia elevado e auspicioso, para proclamar nossa retidão ou rastejar e chafurdar em nossa miséria. Nós, ateus, não precisamos de sacerdotes, ou de alguma hierarquia deles, para policiar nossa doutrina. Sacrifícios e cerimônias são abomináveis para nós, assim como relíquias e a adoração de qualquer imagem ou objeto (inclusive na forma de uma das mais úteis inovações do homem: o livro encadernado). Para nós, nenhum ponto da Terra é ou pode ser “mais sagrado” que outro, ao absurdo ostentatório da peregrinação ou ao absoluto horror de matar civis em nome de algum muro, gruta, templo ou pedra sagrados, contrapomos uma caminhada relaxada ou apressada de um lado da biblioteca ou da galeria ao outro, ou um almoço com um amigo agradável, em busca de verdade ou beleza. Algumas dessas excursões à prateleira, ao restaurante ou à galeria obviamente irão, se forem sérias, nos colocar em contato com crença e crentes, dos grandes pintores e compositores devocionais às obras de Agostinho, Aquino, Maimônides e Newman. Esses grandes estudiosos podem ter escrito muitas coisas maldosas ou muitas coisas tolas, e ter pateticamente ignorado a teoria dos germes para a doença ou a posição do globo terrestre no sistema solar, quanto mais no universo, e essa é a simples razão pela qual não há mais deles hoje, e por que não haverá mais deles amanhã. A religião disse suas últimas palavras inteligíveis, nobres ou inspiradoras há muito tempo: ou isso ou se transformou em um humanismo admirável mas nebuloso como no caso, digamos, de Dietrich Bonhoeffer, um bravo pastor luterano enforcado pelos nazistas por se recusar a colaborar com eles. Não teremos mais os profetas ou os sábios do passado, e é por isso que as devoções hoje não passam de ecos de ontem, algumas vezes transformados em gritos para disfarçar o terrível vazio.

Deus não criou o homem à sua imagem. Evidentemente foi o contrário, e essa é a explicação para a profusão de deuses e religiões e o fratricídio entre religiões e no interior delas que vemos ao nosso redor e que tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização.

Isso já é mistério e maravilha suficientes para qualquer mamífero: a pessoa mais educada do mundo agora tem de admitir — eu não quero dizer confessar — que sabe cada vez menos, mas pelo menos sabe cada vez menos sobre cada vez mais.

Como consolo, já que as pessoas religiosas frequentemente insistem em que a fé atende a essa suposta necessidade, eu digo simplesmente que aqueles que oferecem falso consolo são falsos amigos. De qualquer modo, os críticos da religião não simplesmente negam que ela tenha um efeito analgésico. Em vez disso, eles fazem um alerta contra o placebo e a garrafa de água colorida. Provavelmente a mais popular citação equivocada dos tempos modernos — certamente a mais popular nesta discussão — é a afirmação de que Marx descartou a religião como sendo “o ópio do povo”. Ao contrário, esse filho de uma linhagem rabínica levava muito a sério a crença, e escreveu assim em sua contribuição à Critica da filosofia do direito de Hegel:

A inquietação religiosa é ao mesmo tempo expressão de inquietação real e o protesto contra a inquietação real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo.
A abolição da religião como felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. A necessidade de abrir mão das ilusões sobre sua condição é a necessidade de abrir mão de uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião, portanto, está no cerne da crítica ao adeus aos sofrimentos, cujo halo é a religião. A crítica retirou as flores imaginárias da corrente não para que o homem use a corrente sem fantasia ou consolo, mas para que ele se livre da corrente e colha a flor viva.

O mesmo é verdade, como frequentemente é esquecido, no caso de seus equivalentes católicos. As formações Ustashe foram revividas na Croácia e fizeram uma tentativa criminosa de tomar a Herzegovina, como tinham feito durante a Segunda Guerra Mundial. A bela cidade de Mostar também foi bombardeada e sitiada, e a mundialmente famosa Stari Most, ou “Ponte Velha”, datada da época turca e considerada pela Unesco local cultural de importância mundial, foi bombardeada até desmoronar rio abaixo. De fato, as forças extremistas católicas e ortodoxas estavam unidas em uma divisão e em uma limpeza sangrentas da Bósnia-Herzegovina. Elas foram, e em grande medida ainda são, poupadas dessa vergonha pública porque a mídia mundial preferiu a simplificação de “croata” e “sérvio” e só mencionou religião quando se referia a “os muçulmanos”. Mas a tríade de termos “croata”, “sérvio” e “muçulmano” é desigual e enganadora, no sentido de que equaciona duas nacionalidades e uma religião. (A mesma confusão é feita de forma diferente na cobertura do Iraque, com o trio “sunita-xiita-curdo”). Havia pelo menos dez mil sérvios em Sarajevo durante o cerco, e um dos principais comandantes da defesa, um oficial e cavalheiro chamado general Jovan Divjak, cuja mão tive orgulho de apertar sob fogo, também era sérvio. A população judaica da cidade, que datava de 1492, em sua maioria também se identificava com o governo e a causa da Bósnia. Teria sido muito mais correto se a imprensa e a televisão tivessem dito que “hoje as forças cristãs ortodoxas retomaram o bombardeio de Sarajevo” ou “ontem a milícia católica conseguiu derrubar a Stari Most”. Mas a terminologia confessional era reservada exclusivamente aos “muçulmanos”, mesmo que seus assassinos se dessem o trabalho de usar grandes cruzes ortodoxas sobre as bandoleiras ou colar imagens da Virgem Maria nas coronhas dos rifles. Assim, mais uma vez, a religião envenena tudo, incluindo nossa própria capacidade de discernimento..

A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo “Espírito Santo.” Sim, e o semideus grego Perseu nasceu quando o deus Júpiter visitou a virgem Danae na forma de um banho de ouro e a engravidou. O deus Buda nasceu através de uma abertura no lado do corpo de sua mãe. Coatlicue, a serpente, pegou uma pequena bola de plumas do céu e a escondeu em seu seio, e assim o deus asteca Huitzilochtli foi concebido. A virgem Nana pegou uma romã da árvore banhada pelo sangue do assassinado Agdistis, colocou-a em seu seio e deu à luz o deus Attis. A filha virgem de um rei mongol acordou certa noite e se viu banhada por uma luz grandiosa, que fez com que ela desse à luz Gêngis Khan. Krishna nasceu da virgem Devaka. Horus nasceu da virgem Ísis. Mercúrio nasceu da virgem Maia. Rômulo nasceu da virgem Rhea Silvia. Por alguma razão, muitas religiões se obrigam a pensar no canal de nascimento como uma rua de mão única, e até mesmo o Corão trata a Virgem Maria com reverência. Contudo, isso não fez diferença durante as Cruzadas, quando um exército papal partiu para retomar Belém e Jerusalém dos muçulmanos, incidentalmente destruindo muitas comunidades judaicas e saqueando a cristã herética Bizâncio no caminho, e promoveu um massacre nas ruas estreitas de Jerusalém, onde, de acordo com cronistas histéricos e encantados, o sangue jorrava até a brida dos cavalos.

Bem, como eu consegui responder em uma réplica posterior a Dennis Prager, agora você tem sua resposta. Os 19 assassinos suicidas de Nova York, Washington e Pensilvânia eram, sem dúvida alguma, os crentes mais sinceros naqueles aviões. Talvez possamos ouvir um pouco menos sobre como as “pessoas de fé” têm vantagens morais que as outras só podem invejar. E o que aprender com o júbilo e a propaganda extasiada com que esse grande feito de fé foi louvado no mundo islâmico? Na época os Estados Unidos tinham um procurador-geral chamado John Ashcroft que afirmara que os Estados Unidos “não tinham rei que não Jesus” (uma afirmação que era exatamente três palavras longa demais). Havia um presidente que queria entregar o tratamento aos pobres a instituições “baseadas na fé”. Esse não seria o momento de dar algum valor à luz da razão e à defesa de uma sociedade que separa Igreja e Estado e valoriza a liberdade de expressão?

É preciso destacar de imediato que esse tipo de coisa, além de antiético e não profissional, era também absolutamente inconstitucional e antiamericano. James Madison, o autor da Primeira Emenda à Constituição, que proíbe qualquer lei referente ao estabelecimento de uma religião, também foi um dos autores do Artigo IV, que afirma de forma inequívoca que “nenhum teste religioso poderá ser exigido como qualificação para qualquer posto ou cargo público”. Seu Detached Memoranda posterior deixa absolutamente claro que ele, para começar, se opunha à nomeação de capelães, tanto nas Forças Armada quanto nas cerimônias de instalação do Congresso. “O estabelecimento do posto de capelão no Congresso é uma clara violação dos direitos iguais, bem como dos princípios da Constituição.” Quanto à presença de clérigos nas Forças Armadas, Madison escreveu: “O objetivo disso é sedutor, o motivo é louvável. Mas não é mais seguro aderir a um princípio correto e confiar em suas consequências do que confiar no raciocínio, por mais ilusório que seja, em favor de um errado? Observe os exércitos e marinhas do mundo e diga se o que está sendo mais contemplado na nomeação de seus ministros de religião é o interesse espiritual dos rebanhos ou o interesse pessoal do pastor.” Qualquer um que citasse Madison hoje muito provavelmente seria considerado subversivo ou insano, mas sem ele e Thomas Jefferson, coautores do Estatuto da Virgínia sobre Liberdade Religiosa, os Estados Unidos teriam continuado a ser o que eram — com os judeus proibidos de ocupar cargos em alguns estados, católicos em outros e protestantes em Maryland: este último era um estado em que “palavras profanas referentes à Santíssima Trindade” eram passíveis de punição com tortura, marcação a ferro e na terceira oportunidade, “morte sem o benefício de um clérigo”. A Geórgia poderia ter continuado a insistir que sua fé estadual oficial era o “protestantismo” — quaisquer que pudessem ser os muitos híbridos de Lutero.

Em 2005 eu tomei conhecimento de um resultado. No norte da Nigéria — país que anteriormente tinha sido considerado provisoriamente livre da poliomelite — um grupo de religiosos islâmicos lançou uma proclamação, ou fatwa, declarando a vacinação contra a poliomelite uma conspiração dos Estados Unidos (e, surpreendentemente, das Nações Unidas) contra a fé muçulmana. Aqueles mulás diziam que as gotas eram projetadas para esterilizar os verdadeiros crentes. O objetivo e o efeito eram genocidas. Ninguém deveria tomá-las ou administrá-las aos bebês. Em alguns meses a poliomelite tinha retornado, e não apenas no norte da Nigéria. Viajantes e peregrinos nigerianos já a tinham levado até Meca e a espalhado novamente para vários outros países livres da poliomelite, incluindo três africanos e também o distante Iêmen. A pedra teria de ser novamente rolada até o topo da montanha.

Você pode dizer que esse é um caso “isolado”, o que seria uma forma terrivelmente hábil de colocar as coisas. Mas você estaria errado. Você gostaria de ver meu vídeo do conselho dado pelo cardeal Alfonso Lopes de Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, cuidadosamente alertando sua plateia de que todos os preservativos são secretamente feitos com muitos furos microscópicos pelos quais o vírus da aids pode passar? Feche os olhos e tente imaginar o que você diria caso tivesse a autoridade de infligir o maior sofrimento possível com o menor número de palavras. Pense no dano que tal dogma causou: presumivelmente esses furos permitem também a passagem de outras coisas, o que para começar elimina o sentido de um preservativo. Fazer tal afirmação em Roma já é perverso o bastante. Mas traduza a mensagem para o idioma dos países pobres e assolados e veja o que acontece. Durante o carnaval no Brasil, o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Rafael Llano Cifuentes, disse em um sermão à sua congregação que “a Igreja é contra o uso de preservativos. As relações sexuais entre um homem e uma mulher devem ser naturais. Eu nunca vi um cachorrinho usando um preservativo durante o intercurso sexual com outro cão”. Clérigos em altos postos em diversos outros países — o cardeal Obando y Bravo da Nicarágua, o arcebispo de Nairóbi, no Quênia, o cardeal Emmanuel Wamala, de Uganda — também disseram a seus rebanhos que os preservativos transmitem a aids. De fato, o cardeal Wamala opinou que as mulheres que morrem de aids deveriam, em vez de empregar proteção de látex, ser consideras mártires (embora presumivelmente esse martírio deva acontecer nos limites do casamento).

As autoridades islâmicas não se saíram melhor, e algumas vezes foram ainda piores. Em 1995, o Concílio de Ulemás, na Indonésia, insistiu em que os preservativos só estivessem disponíveis para casais casados, e com receita médica. No Irã, um trabalhador HIV-positivo pode perder o emprego, e médicos e hospitais tem o direito de recusar tratamento para pacientes com aids. Um funcionário do Programa de Controle da Aids do Paquistão disse à revista Foreign Policy em 2005 que o problema era menor em seu país por causa dos “melhores valores sociais e islâmicos”. Isso em um Estado em que a lei permite que uma mulher seja sentenciada a ser estuprada por um bando, de modo a expiar a “vergonha” de um crime cometido por seu irmão. É a velha combinação religiosa de repressão e negação: uma praga com a aids não deve ser mencionada porque os ensinamentos do Corão são em si suficientes para inibir o intercurso antes do casamento, o uso de drogas, o adultério e a prostituição. Mesmo uma rápida visita, digamos, ao Irã irá demonstrar o contrário. São os próprios mulás que lucram com a hipocrisia, ao licenciarem “casamentos temporários”, nos quais certidões de casamento estão disponíveis por algumas horas, algumas vezes em casas especialmente estabelecidas, com uma declaração de divórcio à mão na conclusão do negócio. Você quase poderia chamar de prostituição… Na última vez em que me fizeram tal oferta eu estava exatamente em frente ao feio templo do aiatolá Khomeini no sul de Teerã. Mas se espera que mulheres cobertas de véus, infectadas com o vírus por seus maridos, morram em silêncio. É certo que em todo o mundo outras pessoas inocentes e decentes irão morrer, de forma terrível e desnecessariamente, como resultado desse obscurantismo.

Uma questão hipotética. Como homem de cerca de 57 anos de idade, eu sou flagrado chupando o pênis de um bebê. Peço que você imagine seu próprio ultraje e sua náusea. Ah, mas eu tenho minha explicação pronta. Eu sou um mohel: um circuncidador oficial e removedor de prepúcio. Minha autoridade provém de um antigo texto, que determina que eu pegue o pênis do bebê em minha mão, corte ao redor do prepúcio e complete o ato colocando seu pênis em minha boca, sugando o prepúcio e cuspindo o pedaço amputado juntamente com um punhado de sangue e saliva. Essa prática foi abandonada pela maioria dos judeus, por causa de sua natureza anti-higiênica ou suas associações perturbadoras, mas ainda resiste entre os fundamentalistas hassídicos, que esperam que o Segundo Templo seja reconstruído em Jerusalém. Para eles, o rito primitivo do peri’ah metsitsah é parte do acordo original e irrevogável com Deus. Descobriu-se que em Nova York, no ano de 2005, o ritual, realizado por um mohel de 57 anos de idade, transmitiu herpes genital a vários meninos e causou a morte de pelo menos dois deles. Em circunstâncias normais a revelação teria levado o Departamento de Saúde Pública a proibir a prática e o prefeito a denunciá-la. Mas, na capital do mundo moderno na primeira década do século XXI, não foi o caso. Em vez disso, o prefeito Bloomberg ignorou os relatórios de respeitados médicos judeus que alertavam para o perigo do costume e determinou à sua burocracia sanitária que adiasse qualquer veredicto. A questão fundamental, disse ele, era assegurar que a livre prática da religião não estivesse sendo infringida. Ouvi a mesma coisa em um debate público com Peter Steinfels, o católico liberal “editor de religião” do New York Times.

Por acaso era ano de eleição para prefeito em Nova York, o que frequentemente explica muito. Mas esse padrão se repete em outras doutrinas, outros estados e cidades, bem como em outros países. Em uma grande região da África animista e muçulmana, meninas são submetidas ao inferno da circuncisão e da infibulação que consiste na retirada do clitóris e dos lábios, frequentemente com uma pedra amolada, e depois na costura da abertura vaginal com uma corda forte que só pode ser removida ao ser rompida pela força do macho na noite de núpcias. Enquanto isso, a compaixão e a biologia permitem que seja deixada uma pequena abertura para a passagem do sangue menstrual. O mau cheiro, a dor, a humilhação e o sofrimento consequentes excedem qualquer coisa facilmente imaginável e inevitavelmente resultam em infecção, esterilidade, vergonha e a morte de muitas mulheres e crianças no parto. Nenhuma sociedade iria tolerar tal agressão a suas mulheres e portanto, a sobrevivência, se essa prática abjeta não fosse sagrada e santificada. Mas, então, nenhum nova-iorquino permitiria atrocidades contra recém-nascidos se não pelos mesmos motivos. Pais que disseram acreditar nas alegações absurdas da “ciência cristã” foram acusados, mas nem sempre condenados, por negar cuidados médicos urgentes a seus filhos. Pais que se imaginam “testemunhas de Jeová” recusaram permissão para que seus filhos recebessem transfusões de sangue. Pais que imaginam que um homem chamado Joseph Smith foi guiado a um conjunto de placas de ouro enterradas casaram suas filhas “mórmons” menores de idade com tios e cunhados que algumas vezes já tinham esposas mais velhas. Os fundamentalistas xiitas do Irã reduziram a idade de “consenso” para 9 anos, talvez em uma emulação admirada da idade da “esposa” mais jovem do “profeta” Maomé. Meninas noivas hindus na Índia são açoitadas, e algumas vezes queimadas vivas, se o dote patético que elas trazem é considerado pequeno demais. Apenas na década passada o Vaticano e sua vasta rede de dioceses foram obrigados a admitir cumplicidade em um enorme número de casos de estupro e tortura de crianças, principalmente, mas de modo algum exclusivamente, homossexuais, em que pederastas e sádicos conhecidos eram protegidos da lei e transferidos para paróquias onde a colheita de inocentes e indefesos frequentemente era melhor. Apenas na Irlanda — antes fiel discípula da Santa Madre Igreja — estima-se hoje que as crianças não molestadas nas escolas religiosas são muito provavelmente a minoria.

Sabe-se hoje que a relação entre saúde física e saúde mental tem uma forte ligação com função, ou disfunção, sexual. Será então uma coincidência que todas as religiões aleguem ter o direito de legislar em matéria de sexo? A principal forma pela qual os crentes afetam a si mesmos, uns aos outros ou aos não-crentes sempre foi sua alegação de monopólio nessa área. A maioria das religiões (com exceção dos poucos cultos que o permitem ou encorajam) não tem de se preocupar muito em reforçar o tabu sobre o incesto. Como o assassinato e o roubo, isso normalmente se revela repugnante para os humanos sem maiores explicações. Mas simplesmente pesquisar a história do medo sexual e da proscrição como codificada pela religião é encontrar uma ligação muito perturbadora entre extrema lascívia e extrema repressão. Quase todos os impulsos sexuais tiveram um momento de proibição, culpa e vergonha. Sexo manual, sexo oral, sexo anal, sexo em diversas posições: basta pensar para encontrar uma proibição medrosa a ele. Mesmo nos Estados Unidos modernos e hedonistas, vários estados definem legalmente a “sodomia” como algo que não é voltado para uma procriação heterossexual face a face.

A razão é a meretriz do Diabo, que nada faz a não ser difamar e corromper tudo o que Deus diz e faz.
Martinho Lutero

Antes de Charles Darwin revolucionar todo o conceito de nossas origens e Albert Einstein fazer o mesmo pelo nascimento de nosso universo, muitos cientistas, filósofos e matemáticos assumiram o que poderia ser chamado de posição omissa e professaram uma ou outra versão de “teísmo”, sustentando que a ordem e a previsibilidade do universo de fato pareciam indicar um projetista, embora não necessariamente um projetista que tivesse qualquer papel ativo nas questões humanas. Essa solução era lógica e racional para a época, e teve especial influência entre os intelectuais da Filadélfia e da Virgínia, como Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, que conseguiram se valer de um momento de crise e inseriram os valores do Iluminismo nos documentos fundadores dos Estados Unidos da América.

notas-deus nao e Grande – Christopher Hitchens